CASES & CAUSOS

Décio Clemente
Atua na área de marketing há mais de 30 anos e é colunista da rádio Jovem Pan de São Paulo.

O LOCUTOR PAULO GIOVANNI

Sou amigo e fã de carteirinha do publicitário Paulo Giovanni. Profissional de primeira linha, inteligente, bem-sucedido, criativo e simpático, ele tem também uma voz privilegiada. Antes de completar 16 anos, foi radialista da pequena Rádio Imperial de Petrópolis, depois foi para a Tupi e em seguida para a Rádio Globo.Quando deixou o rádio, criou sua agência e hoje é um dos profissionais mais influentes do país: preside a Leo Burnett, uma das grandes agências do mercado.

Além de tudo, Paulo tem uma característica fantástica, em uma profissão cujas grandes estrelas do setor têm uma vaidade estratosférica: ele, ao contrário, é simples, atencioso e simpático com todo mundo. É uma unanimidade no mercado; não conheço uma única pessoa que não goste do Paulo Giovanni.

Além da vocação para a publicidade, Paulo Giovanni tem outras características importantes, uma delas é na formação de profissionais. Ele adora preparar e desenvolver carreiras. Dizem que às vezes aposta até em pessoas que, a princípio, não demonstram muito talento, mas ele insiste, por imensa satisfação em ver depois que muitos dos seus pupilos assumiram posições de destaque no cenário nacional.

Outra característica do Paulo é tentar de todas as formas dar oportunidades a jovens, mesmo aqueles sem experiência alguma. “Ter vontade é fundamental, o resto a gente desenvolve”, revela. Ele prefere dar oportunidades do que demitir pessoas e, com
essa tese, me deu uma justificativa interessante: me disse que no início de sua carreira – aos 15 anos – era apenas um entregador de cartas na Rádio Imperial de Petrópolis. Ele tinha o sonho de ser locutor. Todos os dias, na hora do almoço, aparecia no estúdio e pedia ao locutor oficial uma oportunidade para falar na rádio, mas todas as vezes que ele pedia, era enxotado pelo locutor oficial, que respondia que perderia o emprego se deixasse alguém inexperiente falar alguma coisa ao vivo para toda a cidade.

O locutor sempre respondia: “some daqui moleque. Se você pegar esse microfone e falar alguma besteira, te mato”. Mas certo dia, depois de quase um ano implorando, o garotinho Paulinho Giovanninho insistiu: “me deixa só falar a hora certa?” O apresentador, cansado de negar, deixou. E foi aí que ele teve a sua primeira oportunidade como locutor.

Só para abrir um parêntese nesta história, o relógio do estúdio era uma espécie de digital, obviamente sem ponteiros, com grandes números pretos estampados em um metal retangular bege que ia caindo um a um, minuto a minuto, informando precisamente a hora certa, justamente para que nenhum locutor errasse nem a hora nem o minuto.

Aí aconteceu a tragédia: o Paulinho, com essa única oportunidade para iniciar a carreira, empostou a voz, olhou para o relógio e mandou bala: “em Petrópolis, falta um minuto para as cinco horas”. O locutor, desesperado, colocou as duas mãos na cabeça, soltou um palavrão e falou: “não, Paulo, não falta um minuto para as cinco, são uma e cinco, porra”.

Como o locutor não o mandou embora, o que acabaria com sua brilhante carreira, o Paulo também faz assim até hoje com os novatos; insiste o máximo possível. Grande Paulinho Giovanni!