Um sistema desenvolvido pela Abbott Laboratórios do Brasil na fábrica do Rio de Janeiro assegurou que 1/3 do abastecimento da planta industrial seja derivado de fontes de reúso. O resultado é uma redução de mais de 30% no consumo de água potável. O Processo de Gestão de Água contou com uma equipe multidisciplinar desde o estudo inicial de ações, passando por discussões técnicas e comerciais, culminando na implantação de projetos de engenharia e soluções para reaproveitamento e economia de água. A iniciativa conta ainda com um programa de educação ambiental para funcionários, suas famílias e a comunidade em geral.

Não houve requisito legal, nem a exigência de medida compensatória ou ação relacionada à legislação. O projeto partiu de uma estratégia e da vontade de fazer algo diferente. E havia uma significativa restrição: não poderia gerar aumento de custo. De um lado, um melhor gerenciamento de suas águas; de outro, a criação de uma cultura de uso racional e de reaproveitamento do recurso da natureza. A Abbott já possuía uma estratégia ambiental de longo prazo quando foram definidas metas ambiciosas para redução do consumo de água. O mapa estratégico é baseado em seis pilares, sendo a área de Meio Ambiente, Saúde e Segurança (EHS) um deles. Todos os pilares são igualmente avaliados pela Direção.

O trabalho começou com a captação da chuva do telhado da unidade fabril. Um sistema de calhas coletoras foi instalado, descartando a água dos primeiros cinco minutos para evitar os detritos. Como o porão da fábrica era subutilizado, foi transformado em depósito dos contêineres (reaproveitados do processo de produção), em uma armazenagem total de 42 mil litros de água. Maiores consumidoras da fábrica, as torres de resfriamento passaram a utilizar a água de reúso, assim como a jardinagem. O setor de engenharia definiu 18 parâmetros de controle de qualidade da água para afastar o risco de danos no sistema de refrigeração. Antes da reutilização, a água era clorada e filtrada com monitoramento técnico.

Em um segundo momento, as equipes técnicas da Abbott implementaram um modelo de geração de água de reúso a partir dos efluentes sanitário e industrial. O sistema trata internamente o efluente; na sequência, aplica um processo físico e químico e finaliza com filtros mecânicos, passando por uma unidade de osmose reversa.

PERMANENTE E SUSTENTÁVEL

O projeto foi desenvolvido para atender três pilares de sustentabilidade, pois envolveu colaboradores, seus dependentes e pessoas da comunidade (pilar social), minimizando o impacto no consumo de recursos hídricos (pilar ambiental) e obtendo economia financeira no que diz respeito à diminuição de consumo de água potável fornecida pela concessionária do Rio de Janeiro (pilar econômico).

Todo o Processo de Gestão de Águas (e os projetos implementados dentro dele) foi desenvolvido e está em pleno funcionamento com o propósito de ser parte integrante das operações da empresa. As campanhas são contínuas e projetos como os de reúso de efluente ou captação de água de chuva são perenes e já fazem parte dos sistemas técnicos da planta.

Fundamentado pela grave crise hídrica enfrentada pelo país nos últimos anos, o projeto tem suporte para atendimento a uma das estratégias ambientais da fábrica e na conscientização ambiental de todos os funcionários e da comunidade. Seu desenvolvimento e elaboração foram de responsabilidade da área de EHS em conjunto com as de Engenharia e Supply Chain. O corpo técnico é composto por gerente de EHS, com graduação em Engenharia Mecânica e pós-graduação em Segurança do Trabalho, em Gestão Ambiental e em Gestão de Projetos; coordenador de EHS, com graduação em Química e pós-graduação em Planejamento e Gestão Ambiental; técnico de Segurança do Trabalho, também com formação superior em Engenharia de Produção; gerente de Engenharia e Manutenção, com graduação em Engenharia Mecânica; gerente de Infraestrutura e Projetos, com graduação em Engenharia Elétrica; e um comprador, com graduação em Farmácia Industrial.

PARCERIAS E ETAPAS

O projeto foi desenvolvido em quatro etapas: a) Conscientização: por meio de uma campanha interna chamada Menos é Mais; b) Projeto de instalação de coletores de águas pluviais no telhado; c) Projeto de geração de água de reúso a partir de efluente tratado; d) Workshops de tratamento e conservação de água, com a participação de filhos de funcionários e da comunidade – nesta etapa, foram realizados três workshops com filhos de funcionários, crianças de uma comunidade próxima e com universitários do curso de Engenharia Ambiental.

O total engajamento dos funcionários da empresa, iniciando pela alta direção, contando com a participação de vários funcionários na implementação do projeto e também como “padrinhos” das crianças nos workshops realizados, foi fundamental para o sucesso da iniciativa. Foi desenvolvida uma campanha de conscientização, comunicada ao longo de meses e envolvendo todos os colaboradores da fábrica. Todas as áreas da empresa foram envolvidas em algum momento do processo, contribuindo com ações durante a fase de desenvolvimento. Os projetos técnicos foram conduzidos pela EHS, Engenharia e Supply Chain (Suprimentos). Algumas áreas forneceram suporte adicional como Comunicação (campanha), Jurídico (formatação dos contratos), Financeiro (desenho financeiro do processo) e Qualidade (avaliação do processo). A parceria com uma empresa especializada no tema também foi fundamental para o sucesso do projeto, pois o desenho do sistema de reúso foi criado em parceria.

PRÁTICAS, RESULTADOS E PROJEÇÕES 

Inicialmente, o projeto de geração de água de reúso foi concebido para uma produção de até 1.000 m3 por mês. Entretanto, após alguns meses de implementação e conforme os resultados apresentados, foi decidido aumentar o volume, que já atingiu mais de 1.500 m3 em um único mês. A performance mínima hoje esperada supera os 16 milhões de litros por ano. Juntamente com o projeto de captação de água de chuva, espera-se um valor mínimo de 18 milhões de litros anuais.

O gráfico abaixo mostra o impacto dos projetos de águas pluviais e reúso de efluentes no abastecimento da planta fabril em 2017.

O uso do sistema de osmose reversa para reúso de água ainda é inovador, especialmente quando o projeto precisa suportar financeiramente os investimentos feitos pela empresa parceira na compra dos equipamentos e ativos. O desenho do sistema foi baseado nos parâmetros da própria estação de tratamento de esgoto, monitorados ao longo de um período de tempo. Todo o desenho foi customizado para ter menor custo e máxima capacidade de operação para atender aos requisitos de qualidade da água, definidos no projeto.

Com as medidas, a economia de água potável alcançou 16 milhões de litros por ano. Isso representa uma redução no consumo de água em toda a planta fabril de 24% em apenas um ano. O lançamento de efluentes não tratados foi reduzido em mais de 42%. Em termos qualitativos, houve aumento da conscientização sobre o uso racional de água para funcionários, seus dependentes e a comunidade. Cerca de 30% da água consumida na planta fabril é proveniente de fontes renováveis.

Como projeção para o futuro, haverá aumento no volume gerado de água de reúso e, consequentemente, redução do total de efluente lançado no corpo receptor. A Abbott vai continuar avaliando oportunidades de novos projetos de redução de consumo de água. Outras iniciativas são periodicamente avaliadas em reuniões de um grupo multidisciplinar de redução da pegada ambiental e, se aprovadas, são implementadas. A aspiração é obter zero lançamento de efluente e reduzir cada vez mais o uso de água de fontes externas. O uso de equipes multidisciplinares para avaliação de projetos é fundamental. As iniciativas são todas de baixo custo e de rápida implantação. No caso do programa de reúso de água por sistema de osmose reversa – principal responsável pela redução do consumo da Abbott –, estabeleceu-se parceria com uma empresa especializada e com conhecimento técnico sobre o tema, aliado ao conhecimento interno sobre o funcionamento do sistema. O projeto pode ser replicado em qualquer indústria que trate seus efluentes e tenha uma performance adequada em sua estação. Outro ponto muito importante foi a escolha da modalidade de build-operate-transfer (BOT), permitindo que o projeto fosse realizado sem investimento financeiro da empresa, o que agilizou sua implementação. O envolvimento de áreas de suporte foi fundamental, pois a análise dos aspectos técnicos do projeto foi decisivo para uma implementação viável do ponto de vista econômico.

NUTRIÇÃO, FARMÁCIA, DIAGNÓSTICO E DISPOSITIVOS

Presente em mais de 150 países com 99 mil colaboradores, Abbott oferece uma ampla gama de soluções de saúde e bem-estar. O negócio global é dividido em quatro áreas: produtos de nutrição, farmacêuticos, dispositivos médicos e diagnósticos. A empresa segue há 13 anos no índice Down Jones de sustentabilidade, sendo líder no grupo de saúde nos últimos cinco anos.

Quando chegou ao Brasil em 1937, a Abbott era uma das poucas multinacionais do setor de saúde estabelecida no país. Atualmente, a empresa conta com cerca de 1.400 colaboradores no território nacional, e mantém a sede administrativa em São Paulo e a unidade industrial no Rio de Janeiro. A estratégia de longo prazo tem como objetivo fornecer aos brasileiros maior acesso a soluções médicas inovadoras, além de contribuir com o desenvolvimento da área de cuidados para a saúde no país.

O Brasil é peça-chave para a estratégia global da Abbott, que planeja um crescimento orgânico no país que vai além dos mercados do Rio de Janeiro e de São Paulo. A meta é alcançar cidades de tamanho médio, onde as demandas de saúde ainda não foram atendidas. A oferta de produtos diversificados posiciona a empresa e assegura o atendimento das necessidades de cuidados com a saúde da população brasileira, ao mesmo tempo em que contribui com os esforços das autoridades para melhorar o sistema de saúde do país.

Case certificado pelo Programa Benchmarking Brasil, edição 2018.