A escassez de água e as projeções sombrias sobre o abastecimento estimularam a Cargill elencar a “gestão de água” como prioritária da agenda do Comitê de Sustentabilidade. O Prêmio Cargill pelo Uso Racional de Água é parte do processo de conscientização de seus colaboradores sobre o assunto. O desafio era a apresentação de projetos de inovação e uso racional de água tanto pelos funcionários quanto nas unidades da Cargill.

CARGILL

por Yuri Feres, gerente de Sustentabilidade da Cargill

Os anos de 2014 e 2015 foram bastante sofridos para a população brasileira em relação à disponibilidade hídrica. Enquanto algumas regiões, como Sul e Norte, enfrentaram excesso de chuvas e alagamentos, outras, como Sudeste e Nordeste, viram suas bacias hidrográficas secarem e a pouca água que restara ser racionalizada entre abastecimento público urbano ou rural, indústria, irrigação ou dessedentação animal, geração de energia elétrica, navegação e lazer.

Para se ter ideia da situação, no período entre outubro de 2014 e setembro de 2015, mais de 1.100 municípios, o que representa 21% do total de cidades do País, publicaram 1,8 mil decretos devido à ocorrência de estiagem ou seca. A maior concentração foi verificada nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará, com 92%, 88% e 83% dos municípios, respectivamente, com algum tipo de decreto de seca.

No estado de São Paulo, por exemplo, o Sistema Cantareira – responsável pelo abastecimento de aproximadamente nove milhões de pessoas da Região Metropolitana de São Paulo – registrou no período totais precipitados bem inferiores à média climatológica. A consequência foi uma forte redução nas vazões de afluentes que contribuem para encher os reservatórios do Sistema. Na média anual, a vazão foi de 19,67 m³/s, retratando o segundo menor valor desde 1930.

Da mesma forma, o Sistema Hidráulico do Rio Paraíba do Sul, localizado entre os maiores polos industriais e populacionais do País, e responsável pela geração de energia e abastecimento de cerca de nove milhões de pessoas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, passou a enfrentar escassez hídrica em maio de 2014. Em função disso, a Agência Nacional de Águas (ANA) editou diversas Resoluções autorizando a redução temporária da vazão mínima afluente na barragem de Santa Cecília, de 190 m³/s para 110 m³/s, bem como de outros reservatórios da bacia, a fim de preservar o estoque de água disponível que, em 1° de fevereiro de 2015, atingiu o volume útil de 0,33%, o menor observado em todo o histórico.

Isso sem contar a Região Hidrográfica do São Francisco, que abrange 521 municípios em seis estados (Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás) e o Distrito Federal e vem enfrentando condições hidrológicas adversas, com vazões e precipitações abaixo da média, desde 2013. Ou mesmo o desastre ambiental ocorrido em Mariana (MG) após o rompimento da barragem de rejeitos minerais de Fundão, que teve como uma das principais consequências os impactos na qualidade da água, levando à interrupção do abastecimento público de algumas cidades e de diversos outros usuários de água.

GESTÃO DA ÁGUA

O consumo mundial de água nas últimas décadas cresceu duas vezes mais do que a população, resultando em um total de 2,2 bilhões de pessoas que sofrem com a falta de água tratada. Em função desse difícil cenário, o Comitê de Sustentabilidade da Cargill, em 2015, decidiu eleger o tema “gestão da água” como um dos principais assuntos da área. Propôs um desafio aos seus funcionários: desenvolver projetos de inovação e economia de água para o Prêmio Cargill pelo Uso Racional da Água, a fim de sensibilizar tanto colaboradores quanto seus familiares sobre o uso consciente dos recursos hídricos. Na sua segunda edição, a premiação foi criada com o objetivo de mobilizar funcionários, estagiários e terceiros da Cargill para o desenvolvimento de práticas e projetos relacionados ao tema e para constituir um acervo de ideias inovadoras e premiadas para benchmark entre seus funcionários e operações.

O engajamento foi grande: mais de dez cidades em que a companhia está localizada, nos estados de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso e Goiás. Ao todo, o comitê organizador da premiação recebeu 26 projetos inscritos nas três categorias (Empresa em Ação; Empresa Inovação; e Casa e Comunidade em Ação) com potencial de economizar mais de 790 milhões de litros de água por ano. Volume suficiente para suprir a necessidade de uma cidade de aproximadamente 20 mil pessoas durante um ano inteiro.

Foram duas etapas para a escolha dos projetos vencedores. Na fase Local, as propostas competiram entre si dentro da própria unidade. E os que passaram para a etapa Nacional, foram submetidos ao crivo de uma comissão julgadora formada por nove gerentes e coordenadores das áreas de meio ambiente, qualidade, melhoria contínua e sustentabilidade.

EMPRESA EM AÇÃO

A categoria Empresa em ação, voltada para projetos, programas ou ações já implementados e ainda em vigor em uma ou mais localidades da Cargill, recebeu oito inscrições. As propostas, desenvolvidas por funcionários, estagiários ou terceiros, geraram uma economia de água de 587,5 mil m³/ano.

O projeto vencedor veio da Unidade de Processamento de Milho, em Castro (PR), e teve como principal propósito aumentar a eficiência da Estação de Tratamento de Água (ETA). O grande desafio da equipe vinha do fato de que a água enviada para tratamento, e que posteriormente é utilizada na linha de produção, tem grande variação de pH (6 a 9) e turbidez (0 a 120) em um curto intervalo de tempo. Isto porque o rio de onde essa água é captada está situado em uma região agrícola, a 12 km de distância da Estação de Tratamento. Em função disso, era necessário aplicar uma maior quantidade de químicos a fim de ter uma água adequada para o processo produtivo.

O processo passou pelo treinamento da equipe em dosagem de produtos químicos para tratamento de água potável, realizado a partir de visitas às estações da rede pública da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar); a instalação de um equipamento para avaliação contínua da água captada, cuja função é regular a dosagem de coagulante utilizada no tratamento; e a montagem de um sistema de pré-oxidação para dosagem de cloro na entrada da ETA. O objetivo é retirar matéria orgânica e ferro da água, o que não era feito inicialmente. Com isso, a primeira mudança notada foi o tempo de saturação dos filtros de carvão utilizados no tratamento, que passou de seis horas para aproximadamente 24 horas, em função da redução de matéria orgânica (algas) sequestrada no trajeto.

No decorrer de dez meses, entre agosto de 2014 e maio de 2015, o projeto trouxe uma eficiência média para a ETA 20% superior, com economia de água de 348,9 mil m³ e de custo médio com químicos de R$ 0,68 de/m3 de água tratada. Considerando o custo variável da água, a Unidade reduziu em até R$ 282,6 mil seu desembolso com a matéria-prima.

 

EMPRESA INOVAÇÃO

Na categoria Empresa inovação, para projetos ainda não implementados ou em fase de implementação, foram realizadas 14 inscrições, com propostas que gerariam até 172,6 mil m³/ano. O programa que se destacou foi da Unidade de Grãos e Processamento, de Uberlândia (MG), para reúso da água utilizada na caldeira.

A ideia era reduzir a quantidade mensal de água descartada pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), que era, em média 17,5 mil m³. O volume é equivalente ao necessário para abastecer 5,3 mil pessoas nesse mesmo período, por não ter alcançado a qualidade necessária para alimentar as caldeiras. Para isso, a equipe responsável pelo projeto passou a manter dois tanques de armazenamento, e a parte que não poderia ser aproveitada era reutilizada posteriormente na limpeza da área das caldeiras, skim pit de cinzas e peneira de cinzas.

No período de sete meses aproximadamente, foi possível alcançar uma economia de 79,1 mil m³ de água e R$ 435,1 mil.

CASA E COMUNIDADE EM AÇÃO

Na categoria Casa e comunidade em ação, que visava projetos, ações ou práticas para aplicação em casa, na comunidade ou no bairro, foram realizadas quatro inscrições, com propostas que gerariam até 32,6 mil m³/ano. O projeto que melhor soube aproveitar a oportunidade foi do funcionário Milton José da Costa, da área de Originação, em Uberlândia (MG), cujo objetivo era de reutilização e reaproveitamento da água das chuvas e do enxágue da máquina de lavar roupas na limpeza de quintais, varandas, rega de plantas, entre outras atividades que não necessitam de água altamente tratada. A proposta teve como finalidade não só fazer o melhor aproveitamento do recurso hídrico disponível como também reduzir o consumo mensal de água, bem como dos valores de tarifas pagos aos órgãos responsáveis pelo serviço.

Um estudo apresentado pelo funcionário foi a base para a primeira etapa do projeto, colocado em prática em março de 2015, que fazia o recolhimento apenas da água da chuva. Tomando como parâmetros a média de chuvas nos últimos dez anos, entre os meses de outubro e abril, e a capacidade de armazenamento das bombonas – 800 litros – chegou-se a um aproveitamento de 14,9 mil litros de água por mês nesse período de maior precipitação.

Os números absolutos na economia de água previstos com o projeto variam conforme as fontes de captação e o uso da água. Antes da implementação das bombonas, a captação total era de pouco mais de 33 mil litros/mês pelo Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE), e 100% desta água era para uso geral. Com a proposta de captação também a partir das chuvas e da lavanderia – via tanque ou lava-roupas –, com uso apenas para limpeza externa e irrigação de plantas, o consumo reduz em 2,2 mil litros, o que representa uma economia de R$ 11,23 – ou 16% a menos – na conta de água. Se, nesta captação, incluir usos em bacias sanitárias, são 17,2 mil litros a menos por mês e uma economia de R$ 35,68 (–52%).

COMPROMISSO CARGILL

Consciente da importância essencial do uso racional da água para a vida, a Cargill tem a meta global de, até 2020, aumentar em 5% a eficiência do uso da água, tendo como base 2015. Dessa forma, a empresa vai diminuir o volume utilizado por tonelada de produto produzido, reduzindo, assim, seu impacto no consumo desse importante recurso. Durante o ano de 2015, a Cargill consumiu 8,9 milhões de m³ de água; sendo que, desse total, 38% vieram de fontes superficiais, 32% de empresas de abastecimento de água e 30% de fontes de água subterrânea. No Brasil, a Cargill conseguiu reduzir em 14% a intensidade do uso de água em suas operações, entre os anos 2010 e 2015, e continuará a trabalhar continuamente para reduzir a sua pegada hídrica e favorecer o uso eficiente da água em todos os locais onde opera.

O trabalho não para nunca. Já em 2016 a premiação ganhou novo enfoque. Rebatizado de Prêmio Cargill de Sustentabilidade, o tema para a sua terceira edição foi o uso inteligente de energia. Esperamos assim continuar contribuindo para um Brasil mais sustentável e ecoeficiente.

SOBRE A CARGILL

A Cargill produz e comercializa internacionalmente produtos e serviços alimentícios, agrícolas, financeiros e industriais. Em parceria com produtores, clientes, governos e comunidades, e por meio de 150 anos de experiência, ajuda a sociedade a prosperar. Possui 150 mil funcionários em 70 países, os quais estão comprometidos em alimentar o mundo de forma responsável, reduzindo impactos ambientais e melhorando as comunidades onde vivem e trabalham. No Brasil desde 1965, é uma das maiores indústrias de alimentos do país. Com sede em São Paulo (SP), a empresa está presente em 17 estados brasileiros, com unidades industriais e escritórios em 191 municípios e mais de 10 mil funcionários. Para mais informações, visite www.cargill.com e a central de notícias.

O case é certificado pelo Programa Benchmarking Brasil edição 2016.