CASES & CAUSOS

Décio Clemente
Atua na área de marketing há mais de 30 anos e é colunista da rádio Jovem Pan de São Paulo.

Em 1978, eu coordenei uma convenção anual da Fiat, sob a pressão direta do então presidente da companhia, o engenheiro Aldo Indovino, um italiano bravo, de poucos amigos. O homem era uma fera e sempre dizia odiar surpresas de última hora. Afirmava ainda que os brasileiros gostavam de inventar, principalmente em eventos e convenções. Justamente por causa disso, ele exigia saber de antemão tudo o que iria acontecer.

Estávamos lançando um novo modelo Fiat 147, para a área rural, e o que mais queríamos nessa convenção era a presença de todos os concessionários para chamar a atenção sobre a resistência do Fiat fora da estrada. A propaganda desse carro dizia mais ou menos o seguinte: “Vem aí o carro que não quebra”, com o objetivo de combater o Fusca, que tinha uma imagem imbatível nesse quesito.

Evidente que, na convenção de lançamento do modelo, o tema era a respeito do conceito do “carro que não quebra”. Desde o convite para os concessionários, passando pelos banners, cartazes de ponto de venda, folhetos e o incrível comercial de TV que mostrava o carro e sua performance em terra e barro.

Depois de todas as palestras, a última atração seria mostrar o carro, com entrada no teatro em grande estilo; de preferência sujo de barro e fazendo barulho para gerar impacto. Para alcançar o resultado, dei uma ideia que quase me custou o emprego. Sugeri que, em vez de entrar calmamente por uma das portas do salão de convenções, o carro chegasse direto pelo telão do palco após a apresentação do comercial. O chefe italiano me olhou com cara de poucos amigos, mas eu expliquei que o filme mostrava o carro correndo e fazendo manobras em terrenos acidentados e, no final ia em direção à câmera como se estivesse indo para cima de quem estava assistindo. Então, poderíamos aproveitar a cena, deixando o carro escondido atrás da tela para na hora certa avançar rasgando o telão e aparecer no palco de frente para o público, com parada ao lado do chefe. Todos gostaram da ideia, inclusive o chefe, e do impacto que poderia causar, com a única exigência de ensaios à exaustão para nada dar errado.

Enquanto os concessionários visitavam a fábrica, eu e minha equipe ficamos no palco ensaiando o dia todo, com o apoio de uma produtora que era a melhor do Brasil. Tudo preparado nos mínimos detalhes, faltava apenas chegar a hora. Para o carro entrar no palco com maior facilidade, a tela de tecido foi trocada por uma de papel de seda fosco, com alguns longos cortes de cima aa baixo, feitos com lâmina para facilitar o rasgo e a passagem do carro, parado atrás dela.

Chegada a hora, todos preparados e ensaiados. O carro estava parado atrás da tela com nosso supermotorista Alaor na direção para acelerar na hora combinada, rasgar a tela e parar no palco iluminado por luzes e fogos de artifício. Mas, quando chegou a hora, Alaor ficou nervoso, acelerou o carro na hora certa, só que a tela não rasgou como queríamos. Com o impacto do carro, a moldura quebrou e foi derrubada, fazendo um grande barulho e quase acertando o engenheiro Indovino, que já estava na frente. Para piorar, o Alaor se atrapalhou com os refletores, passou do ponto e caiu do palco com o carro e tudo, estatelando-se na frente da plateia com cerca de 800 pessoas. Eu quase enfartei; porém, para nosso espanto, o público se levantou e aplaudiu delirantemente aquela performance que julgavam ter sido proposital. Para nossa sorte, o carro não quebrou com a queda. O chefe queria matar todo mundo, mas disfarçou bem com o incidente, nos deixou no emprego e ainda deu um bônus pela ousadia.