CASES & CAUSOS

Décio Clemente

Atua na área de marketing há mais de 30 anos e é colunista da rádio Jovem Pan de São Paulo.

Dominique, a princesa

Nos anos 1960 existiu uma música de muito sucesso chamada “Dominique”, contando a história de uma princesinha que vivia alegre a esperar por seu príncipe encantado. No final, a tal Dominique ficou mal porque seu eterno namorado se mandou com
outra. Os gozadores da época diziam ser Dominique um travesti enrustido que foi abandonado em praça pública.

Depois de lembrar da frágil Dominique, eu posso contar o que aconteceu no lançamento do Renault Dauphine, que, pelo nome, já nasceu fraco; tanto que o próprio presidente da fábrica francesa resolveu lançar com grande pompa uma versão com outro nome, dizendo ser muito melhor do que Dauphine, e, para espanto de todos, escolheu Gordini, que era o inverso de Dauphine.

Como a desgraça já estava feita, o meu amigo João De Simoni, um craque em marketing, foi chamado para desfazer a tragédia. Ele sugeriu ao presidente realizar uma volta ao mundo com os dois carrinhos para provar que eles eram fortes. Como não
dava para fazer uma volta ao mundo de verdade, foi combinada uma prova no Autódromo de Interlagos, com os carrinhos rodando por 15 dias e 15 noites sem parar.

A imprensa, que não se cansava de dizer que os carrinhos eram fracos, foi convidada para acompanhar toda a prova. O João De Simoni pensou em tudo, desde dormitórios para os jornalistas até alguns carros reservas, muito bem escondidos no trajeto da pista, para que, se fosse o caso, entrassem em ação na calada da noite, em substituição aos que ficassem pelo caminho, ou seja, valia tudo para reverter a imagem negativa dos possantes.

Depois do sexto dia de prova, ninguém aguentava mais, os únicos que levavam a coisa a sério eram o João De Simoni, os pilotos e um estagiário de uma revista especializada que não saía de lá.

E quando chegou o grande dia do encerramento da prova, os carrinhos Dauphine e Gordini estavam lá provando a sua força. Aí o presidente da Renault resolveu ajudar e, quando os carrinhos pararam na frente de todos, disse que anunciaria um novo nome para os possantes. O João De Simoni chegou a suar frio, mas não acreditando que o francês pudesse achar um nome pior do que Dauphine e Gordini.

Com os carros já estacionados diante da imprensa, o francês pegou uma garrafa de champanhe, bateu com toda a força na capota dos dois carrinhos e sentenciou que, pela performance demonstrada, os carrinhos a partir de então passariam a ser chamados de Dominique!

Nessa hora o pessoal de marketing queria matar o presidente da Renault. E o João De Simoni, antes de desmaiar, por pouco não pegou uma garrafa de champanhe para atirar na cabeça do francês.