Mais de 8 milhões de embalagens plásticas, equivalentes a 400 toneladas, foram recicladas e 15 mil litros de óleo, recuperados. Tudo sem utilização de água, nem geração de efluentes e resíduos, com risco ambiental zero para toda a cadeira de logística reversa. Esse é o resultado de um ano e meio de operação da Eco Panplas, empresa paulista criada com o objetivo de viabilizar a reciclagem de embalagens plásticas de óleos lubrificante e de cozinha (vegetal), que possuem alto poder de contaminação ambiental, com benefícios socioambientais e econômicos. O consumo anual no Brasil desse material é de 5 bilhões de litros, um volume de 70 mil toneladas de plástico contaminado, o que corresponde a aproximadamente 600 mil caminhões.

O processo convencional de reciclagem de plástico possui a etapa de lavagem com água para limpeza do material. Porém, para muitos plásticos contaminados, que possuem alto poder de contaminação do meio ambiente, essa solução não atende porque não remove de maneira eficiente o contaminante do plástico e ainda utiliza grande quantidade de água, gera efluentes e vários tipos de resíduos, com alto risco ambiental, como é caso das embalagens de óleo lubrificante e óleo de cozinha (vegetal).

Após serem escorridas, essas embalagens apresentam ainda 3% de óleo residual, ou seja, são 2,5 milhões de litros capazes de contaminar o meio ambiente – sendo que apenas 1 litro de óleo pode contaminar 1 milhão de litros de água –, acabar com qualquer espécie de vida, além de contaminar solos e aterros, entupir as redes de abastecimento de água e esgoto das cidades. Trata-se de um potencial de contaminação de 2,5 trilhões de litros de água.

Essas embalagens, quando enviadas para a reciclagem convencional, potencializam o problema, pois na lavagem com água são gerados de 30 a 50 mil litros de água contaminados e até 28% de resíduos oleosos. Além disso, como essa lavagem não remove o óleo, o plástico perde qualidade, aplicação e preço, reduzindo valor em toda a cadeia de reciclagem, principalmente para os catadores e cooperativas.

PROCESSO TECNOLÓGICO

A Eco Panplas é uma iniciativa que nasceu de um sonho: transformar ideias relacionadas à reciclagem de plásticos em realidade, por meio de uma tecnologia limpa e ecológica. Ao longo de três anos, a empresa desenvolveu um equipamento cujo sistema produtivo permite a reciclagem das embalagens de óleos de uma forma muito mais eficiente, que não utiliza água, recupera o plástico e o contaminante sem gerar resíduos.

Com o desenvolvimento e uso de um desengraxante líquido ecológico, aliado à tecnologia, é feita a descontaminação. O produto é recuperado no próprio sistema, em circuito fechado, voltando limpo. Todos os insumos dos resíduos são separados, recuperados e valorizados (plástico, óleo, rótulo), possibilitando a economia circular e evitando risco ambiental. Dessa forma, o plástico totalmente limpo pode ser transformado em embalagem novamente. Esse projeto de inovação foi dividido nas seguintes etapas:

1) Testes e validação da ideia e do cenário e detalhamento do escopo do projeto.

2) Construção do business case com o estudo de viabilidade, plano de implementação e gestão do projeto.

3) Desenvolvimento e testes dessa tecnologia, com a construção dos equipamentos em fase piloto já em escala industrial e um galpão com infraestrutura operacional, licenças de funcionamento e ajustes, testes e validação dos resultados do equipamento.

4) Estruturação e implantação, com a empresa e parcerias na cadeia logística reversa e de reciclagem atuando junto a fabricantes de óleo lubrificante, prefeituras, cooperativas, empresas ambientais de coleta e gerenciamento de resíduos, programas de logística reversa e órgãos ambientais.

5) Início das operações em escala de produção e desenvolvimento de novas aplicações.

Além de ter sido validado como inovadora, a Patente Verde foi enquadrada pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) como uma tecnologia limpa que contribui positivamente para as questões ambientais, de mudanças climáticas e gerenciamento de resíduos. Dessa forma, teve sua prioridade de análise. Uma patente normal dura em torno de 8 a 10 anos para ser analisada, já a da Eco Panplas teve sua carta patente emitida em três anos.

DIFICULDADES NA IMPLEMENTAÇÃO 

Foi necessário muito esforço e persistência da equipe, especialmente na etapa de desenvolvimento da tecnologia, pois, como toda inovação, havia o risco de não dar certo. No projeto inicial, eram três processos produtivos, mas a linha foi finalizada com nove processos, formando um sistema interligado, conseguindo finalmente atingir a viabilidade técnica-econômica-financeira. Após essa etapa, a dificuldade maior foi validar todos os resultados e a proposta de valor no mercado, com a valorização do plástico e os resultados almejados em escala de produção.

UNIDADE PRODUTIVA

A linha de produção da Eco Panplas foi instalada em Hortolândia, na região de Campinas, em São Paulo, com capacidade mensal para processar 215 toneladas de plástico contaminado com óleo, ou 4 milhões de garrafas, gerando 200 toneladas de plástico descontaminado e 7.500 litros de óleo recuperado. Em termos de benefícios socioambientais, isso significa 7,5 bilhões de litros de água preservados do meio ambiente, 306 toneladas a menos de emissão de gases de efeito estufa, trabalho para 632 catadores para recolher o material, 75% de economia de energia e 120 mil litros de água poupados, que não são usados na produção.

Por enquanto, a empresa só processa 50 toneladas por mês, funcionando em um único turno com três funcionários na produção. A expectativa é operar com o máximo da capacidade dentro de dois anos. Toda a produção, até o momento, foi vendida para o maior reciclador do país, comprovando a valorização do plástico. A Eco Panplas presta serviço para o Instituto Jogue Limpo (programa de logística reversa das maiores fabricantes de lubrificantes do país, como Shell, Ipiranga e Petrobras). O plástico faz parte da plataforma WeCycle, da Braskem, maior fabricante de resina virgem do mundo e que está lançando uma linha de resina reciclada com a Eco Panplas.

PASSADO (RECENTE) E FUTURO

A Eco Panplas nasceu em 2014, no interior de São Paulo, com o propósito de transformar ideais relacionadas à reciclagem de plásticos em realidade, por meio de soluções inovadoras e sustentáveis que tragam benefícios ambientais, sociais e econômicos para a sociedade.

Formada por uma equipe multidisciplinar, desenvolveu ao longo de três anos uma tecnologia produtiva, limpa e sustentável, voltada para a reciclagem de embalagens plásticas pós-consumo e tendo como foco inicial as embalagens de óleo lubrificante. A planta e o processo são licenciados.

Atualmente, 3,3 mil toneladas de óleo lubrificante são lançadas todos os meses no mercado nacional – 40 mil toneladas por ano – e só 10% passam por reciclagem. A Eco Panplas tem o potencial de multiplicar em 15 vezes o volume processado e, consequentemente, os benefícios socioambientais.

A empresa sonha em replicar o modelo em outras regiões do país a partir de unidades compactas, do tamanho de um contêiner, em regime de comodato. Há um projeto consolidado apontando que a tecnologia pode ser disseminada com a mesma capacidade do protótipo, o que permitiria dar escala à solução da Eco Panplas e ainda contar com ganhos logísticos da redução de distâncias.

Outras aplicações, como embalagens de tinta (baldes de tintas) e produtos químicos (galões plásticos), que também têm alto poder de contaminação ambiental, estão dentro dos planos da Eco Panplas para os próximos anos.  O conceito é idêntico ao da reciclagem de embalagens de óleo, os principais contaminantes são recuperados e transformados em subproduto por meio de processo ecológico e sustentável, e o plástico, totalmente limpo, é valorizado na reciclagem.