Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein desenvolve projeto de ensino adaptativo para sanar falhas de conhecimento e facilitar os estudos de alunos recém-saídos das faculdades de medicina e para médicos que participam de programas de residência


Em 2016, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) registrou um índice de reprovação de 56,4% no exame que atesta a proficiência dos recém-formados em medicina. Dos 2.677 participantes, 1.511 não alcançaram a nota mínima porque acertaram menos de 60% das 120 questões da prova. Dos reprovados, 66,3% eram egressos de instituições de ensino privadas. O exame, obrigatório, não impede que o médico reprovado exerça a profissão, pois a lei proíbe que o Conselho condicione o CRM ao resultado de um teste. No entanto, a aprovação passou a ser exigida em concursos públicos, no mercado de trabalho e no acesso aos programas de residência médica de instituições renomadas como USP, Unicamp, Santa Casa e Unifesp.

Alarmado com o resultado, que mostrava a um só tempo o despreparo dos novos médicos e a deficiência do ensino de medicina, o Cremesp pediu ajuda à Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein no preparo desses profissionais para uma segunda avaliação. A equipe de médicos do Einstein, instituição que mantém programas de residência médica em várias especialidades e que exige a aprovação no exame do Conselho, montou módulos digitais de atualização e ofereceu a esses reprovados. A aceitação foi boa, e até mesmo os que tentaram o exame pela primeira vez procuraram o “curso” do Einstein. O material parece ter surtido efeito. Em 2017, apenas 35,4% dos que prestaram o exame do Cremesp acertaram menos de 60% das 120 questões, e o índice de aprovação foi de 64,6%.

Apesar de estar dividido em módulos de interesse, o material repetia o mesmo problema do estudo tradicional: obrigava o estudante a ler e reler milhares de páginas para absorver o conteúdo denso e para encontrar os tópicos em que tinha dúvida.

O problema não foi percebido apenas pelos participantes do exame, mas também pelo próprio Einstein, que se viu diante de um desafio: criar um material de estudos que ao mesmo tempo em que capacita o profissional de forma eficiente também permite que ele use melhor seu tempo para a prática clínica e a aquisição de conhecimento.

Durante quase dois anos, a equipe médica da instituição se debruçou sobre o material e sobre novas tecnologias para criar uma ferramenta de estudos fácil de usar e que respeitasse os níveis de conhecimento e as falhas de cada aluno. A metodologia escolhida foi o ensino adaptativo, uma tendência para a educação do século 21, que explora a tecnologia educacional de forma a melhorar o aprendizado individual, reconhecendo o que, onde, como e quando cada aluno aprende com mais facilidade. Mas como entregar o conteúdo dentro dessa metodologia? O resultado da pesquisa foi a Atualização Médica Personalizada, uma plataforma online para dispositivos móveis e desktop.

A versão da ferramenta para smartphones e tablets na forma de aplicativo foi entregue em março de 2019 somente para médicos já experientes e residentes do Einstein das especialidades de cardiologia, pediatria 1, ginecologia, obstetrícia e endocrinologia. O retorno superou as expectativas da equipe envolvida no projeto: mais 20 mil downloads do aplicativo foram feitos até o momento.

O DESENVOLVIMENTO


O desenvolvimento da plataforma de atualização médica personalizada levou dois anos, envolveu mais de 100 pessoas, entre médicos conteudistas, médicos especialistas em EAD (ensino a distância) e pessoal de TI, e foi realizado em duas etapas. A primeira etapa se dedicou à pesquisa de métodos de ensino a distância que permitissem personalizar o estudo do conteúdo de acordo com as necessidades do aluno. Partindo do princípio que o curso preparatório para o exame do Cremesp levava à desistência no meio do caminho, pela densidade do conteúdo e por reproduzir o sistema de ler e reler tudo de novo para absorver o conhecimento, a equipe optou pelo ensino adaptativo.

O desafio dos médicos era separar mais de 1.050 horas de conteúdo em assuntos, disponibilizados por níveis de dificuldade. Para isso, a equipe consultou os médicos generalistas, os que ensinam em programas de residência, os que atuam em faculdades e os que já deixaram o meio acadêmico. Chegaram à conclusão que seria necessário fazer um pré-teste que pudesse identificar não apenas o que o aluno ou médico sabia, mas também as lacunas de conhecimento – as falhas sabidas e as que ele nem sabia que existiam.

O teste consiste na apresentação de um caso clínico, com os conceitos e a aplicação dos conceitos. Por meio de uma série de perguntas com graus variados de dificuldade, o estudante tem que identificar a doença e indicar o tratamento. O resultado do teste leva à criação de uma trilha de aprendizado que vai ajudar o aluno a estudar ou rever apenas os conteúdos necessários para suprir suas falhas de conhecimento. Segundo Alexandre Holthausen Campos, cardiologista, diretor de graduação em medicina e diretor acadêmico de ensino da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, está aí a grande vantagem do ensino adaptativo. Pessoas com as mesmas dificuldades podem ter trilhas de aprendizado diferentes.

Cardiologia é uma das especialidades disponíveis na ferramenta de ensino adaptativo do Einstein

A rotina do estudante dos últimos anos da graduação em medicina e do médico residente é extenuante. Os quatro últimos semestres da faculdade combinam os estágios práticos obrigatórios com as aulas teóricas de conteúdo extenso. Na residência, o médico depara com uma jornada de 12 horas de prática por dia mais as aulas técnicas e os estudos. Isso sem contar as 12 horas de plantão noturno semanal. Com as trilhas de aprendizado a rotina de estudos deixa de ser um fardo, pois o médico consegue usar melhor o seu tempo se concentrando somente naquilo que não sabe.

A segunda etapa do projeto foi o do desenvolvimento da plataforma de ensino adaptativo em si. A pergunta que a equipe se fez foi a seguinte: como montar as questões para avaliar corretamente o nível de conhecimento. Cinco médicos de processo de ensino de aprendizagem e mais quatro profissionais de EAD se debruçaram sobre o conteúdo para elaborar as perguntas dentro da metodologia do ensino adaptativo. Paralelamente, a equipe de TI criou o algoritmo – a inteligência do sistema que indica a rota de estudo personalizada, com materiais e questões apropriadas às necessidades do profissional, otimizando seu tempo e potencializando seu aprendizado.

Com o algoritmo pronto, a equipe definiu que a plataforma seria desenvolvida para dispositivos móveis (smartphones e tablets) e depois para desktop. Foram desenvolvidas versões para testes de usabilidade, que determinaram a interface e a navegação intuitiva do aplicativo. Ao mesmo tempo, os médicos conteudistas testaram o conteúdo e fizeram o pareamento das questões. O projeto piloto foi lançado três meses depois, com a participação de alunos de medicina, médicos residentes e médicos que tinham deixado a residência na área de obstetrícia. O feedback desses beta testers revelou que, apesar do nível de satisfação ser alto, a dificuldade de algumas perguntas havia sido subestimada. Perguntas classificadas como fáceis, na realidade, eram difíceis e vice-versa. A equipe de TI fez a calibragem do algoritmo, e novos testes mostraram que o sistema estava funcionando como o esperado.

O segundo ano de desenvolvimento da plataforma envolveu a criação visual do aplicativo e a produção em larga escala do conteúdo, que incluiu novas especialidades médicas (cardiologia, ginecologia, pediatria 1 e endocrinologia)  e a produção de vídeos, ilustrações, tabelas, gráficos e exercícios para reforçar o aprendizado. A equipe entregou a primeira versão do aplicativo Atualização Médica Personalizada em março de 2019. No momento, 80 profissionais utilizam o aplicativo ativamente, e um grupo de 3.400 médicos cadastrados participa de testes contínuos.

O retorno que a equipe do Einstein tem tido dos usuários e testadores indica que o conteúdo da plataforma é bom e o método de ensino escolhido, o mais acertado. Os resultados das primeiras trilhas concluídas mostram um avanço na aquisição do conhecimento tido inicialmente como falho. O que é comprovado com um teste de avaliação ao final da rota de aprendizado. O desafio agora é adaptar para a plataforma de ensino adaptativo o conteúdo de mais 17 especialidades médicas e entregar a versão para desktop no segundo semestre, com todas as atualizações e novas funcionalidades identificadas desde o lançamento do aplicativo.

O EINSTEIN


A Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein
é uma sociedade civil sem fins lucrativos, que há mais de 60 anos atua nas áreas de assistência à saúde, educação e ensino, pesquisa e inovação e responsabilidade social. Conta com 12,9 mil colaboradores, 9,4 mil médicos e está sediada em São Paulo. O Einstein possui o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS) e é qualificada como Organização Social da Saúde para atuar na prestação de serviços no Sistema Único de Saúde (SUS).

O Einstein administra 22 unidades públicas: 13 Unidades Básicas de Saúde (UBS), 3 Assistências Médicas Ambulatoriais (AMA), 3 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), 1 Unidade de Pronto Atendimento (UPA), o Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch – M’Boi Mirim e o Hospital Municipal da Vila Santa Catarina – Gilson de Cássia Marques de Carvalho. Apenas na Estratégia Saúde da Família são mais de mil profissionais em 82 equipes atuando. Desde 2002, realizou mais de 3.000 transplantes, 95% deles pelo SUS.

O Einstein mantém ainda um amplo programa na Comunidade Paraisópolis e desenvolve projetos junto à comunidade judaica, na área da assistência à saúde e com o Residencial Israelita Albert Einstein para idosos. Por outro lado, mantém o Hospital Israelita Albert Einstein, um dos mais seletos do país, conhecido pela qualidade de seu corpo clínico e pela produção de conhecimento. Entre 2013 e 2014, por exemplo, produziu 707 pesquisas acadêmicas publicadas em revistas científicas de prestígio.