Formatar novos valores, promover a inclusão socioprofissional e mudar o curso das vidas de adolescentes em conflito com a lei. Estes são os objetivos do Programa Jovem Sustentável Aprendiz, projeto piloto desenvolvido pela Fundação Alphaville desde 2015 em parceria com o Ministério Público, o Poder Judiciário, prefeituras e empresariado locais em dois municípios de Goiás: Senador Canedo e Caldazinha. O programa atua como alternativa às medidas socioeducativas e contempla atividades de Programação Neurolinguística (PNL), integração social e formação em conceitos básicos de informática. As vivências estimulam nova visão de mundo, reflexões pessoais e nova postura perante escolhas. Até hoje, 55 jovens participaram do programa em três turmas. Desses, 42 concluíram o curso e 23 foram inseridos no mercado de trabalho.

Os primeiros passos foram em meados de 2015, com a escolha dos jovens e a definição do conteúdo do programa. Respeitadas as aptidões individuais de cada adolescente, circunstâncias e gravidade da infração, os jovens selecionados para a turma piloto no município goiano de Senador Canedo foram direcionados ao curso, cuja frequência foi imposta como forma de cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto, substituindo a prestação de serviços à comunidade e a liberdade assistida.

As atividades desenvolvidas com cada módulo se estendem por 30 dias úteis, realizadas no contraturno escolar dos participantes. Cada adolescente recebe dois kits de uniforme (uma camiseta e uma calça comprida em cada kit) para serem utilizados, obrigatoriamente, no projeto. Há um sistema organizado de visitas às residências dos adolescentes, realizadas pela equipe técnica, no intuito de readaptá-los à convivência comunitária e familiar, priorizando, ainda, a inclusão dos jovens na escola. A metodologia utilizada consiste no fornecimento de aulas práticas e teóricas, que possuem carga horária de 111 horas/aula e são ministradas de segunda a sexta-feira, das 13h às 17h. Os adolescentes contam com transporte escolar fornecido pelo município.

Em sala de aula, são desenvolvidas atividades integrativas com base na Programação Neurolinguística (PNL), Coaching e Neuropsicopedagogia; vivências voltadas à reflexão sobre novos valores; conceitos da sustentabilidade, através de temas sociais, ambientais, econômicos e visão de mundo; socialização e integração; capacitação pela inclusão digital; aptidões para evolução pessoal; elaboração de currículos e recolocação no mercado de trabalho. Todas as atividades visam sensibilizar os jovens para uma nova visão de mundo, reforçando sua autoestima e apresentando valores que permeiam o respeito a si próprio, ao próximo e à vida.

A continuidade está diretamente ligada aos cenários político e econômico locais. O ideal é que o programa seja realizado anualmente. A metodologia pode ser adaptada de acordo com as necessidades locais, tornando o programa perfeitamente replicável em outros territórios. Os setores envolvidos – público, privado, terceiro setor, sociedade civil, além das parcerias – potencializam o sucesso e são fatores importantes para a disseminação do programa.

APRIMORAMENTO

Para melhorar e garantir a continuidade do programa, destacam-se as iniciativas abaixo:

  • Encontros periódicos entre os responsáveis pela multiplicação do programa;
  • Encontro de soluções e novos métodos de padronização e atualização das práticas adotadas;
  • Utilização do melhor de cada regional para aprimorar e fortalecer a metodologia;
  • Relação de parceria com a comunidade e os órgãos públicos;
  • Apoio do entorno e influentes para garantir a perpetuidade dos conteúdos;
  • Flexibilidade na adoção das práticas: importância da personalização do programa (adequação dos temas) de acordo com o local onde é implantado;
  • Multidisciplinaridade da equipe: formações diversas permitem visão global e integrada dos assuntos abordados;
  • Participação voluntária dos jovens: nada é realizado sem o querer;
  • Parceria com o Ministério do Trabalho: inclusão do programa como ferramenta que atenda à Lei do Aprendiz nº 10.097/2000.

EQUIPE MULTIDISCIPLINAR

A equipe gestora é composta por um juíz da Vara da Infância e da Juventude – responsável pelo acompanhamento da medida socioeducativa – e por uma promotora de Justiça – gestora responsável pelo planejamento, acompanhamento e direcionamento do projeto. Na equipe técnica, o relacionamento e o engajamento dos jovens atendidos, a assistente social – responsável pela seleção e o acompanhamento familiar –, e o consultor técnico em cidadania digital, acompanhamento e gestão técnica do projeto, responsável pelas atividades de permacultura, Coach ICI, Master Practitioner e Trainer em Programação Neurolinguística.

PERFORMANCE

A primeira turma, em 2015, contou com 22 jovens, e 19 concluíram o curso. Destes, 17 passaram a exercer suas atividades laborais, apresentado bons resultados nas empresas e no grupo familiar. No ano seguinte, 17 jovens iniciaram a capacitação, e só 11 a concluíram. Entre os formados, somente dois foram inseridos no mercado de trabalho, seis direcionados a outros projetos e os demais, encaminhados a processos seletivos. No total, desde 2015, participaram do programa 55 jovens. Desses, 42 concluíram a capacitação e 23 foram inseridos no mercado de trabalho. Como resultados qualitativos, destaca-se o desenvolvimento socioeconômico das localidades, uma vez que a ressocialização de jovens em conflito com a lei fomenta o crescimento da região em termos de inclusão social e segurança pública.

APRENDIZADO

O Ministério Público de Senador Canedo, em Goiás, tinha o desafio de promover a inclusão social e a formação técnica para a profissionalização dos jovens da região que cumpriam medida socioeducativa em meio aberto. Por isso, a ideia de um programa feito em parceria com o Ministério Público, Poder Judiciário, Prefeitura e empresariado foi ao encontro das metas do município de suprir uma demanda social e capacitar esses jovens para o mercado de trabalho.

REPLICABILIDADE

O programa nasceu do desafio do município de promover a formação técnica e a inclusão social para a profissionalização de jovens que cumpriam medida socioeducativa em meio aberto. Sendo essa uma realidade de diversas regiões do Brasil, a metodologia foi desenvolvida com base em atividades que podem ser adaptadas e replicadas de acordo com a realidade local. Durante o desenvolvimento do programa, foram identificados fatores de sucesso. O apoio dos órgãos públicos e comunidade garante a perpetuidade do programa, como a parceria com o Ministério do Trabalho, que o torna uma alternativa às medidas socioeducativas do município, atendendo à Lei do Aprendiz 10.097/2000. A adaptação regional garante o fortalecimento da metodologia. Recomenda-se uma equipe multidisciplinar, a fim de garantir uma visão integrada, e a realização de encontros periódicos com o objetivo de buscar novas soluções de desenvolvimento. A participação voluntária dos jovens promove o engajamento e a motivação nos alunos.

Para os próximos anos, a meta é que o Jovem Sustentável seja preventivo com foco em jovens em situação de vulnerabilidade, tornando o programa uma realidade em regiões que apresentam esse cenário. A Fundação Alphaville pretende sistematizar suas práticas e metodologias que têm gerado impacto social, a fim de que se tornem tecnologias sociais e possam ser compartilhadas com o setor. A ideia é produzir referências de sustentabilidade para outras organizações da área social e transferir conhecimento.

CONVIVÊNCIA QUE CONSTRÓI

Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), a Fundação Alphaville promove a busca de novas soluções para o desenvolvimento a partir da convivência com as comunidades atendidas. Usando ideias inovadoras, tem como objetivo ser referência em desenvolvimento socioeconômico e ambiental, despertando e incentivando talentos locais, tornando-se, assim, um agente de transformação da sociedade. A Fundação atua no fortalecimento das comunidades, identificando quem são seus principais atores e quais suas principais vocações e oportunidades, a fim de dar autonomia a esses grupos. Nas comunidades, trabalha para que os projetos desenhados sejam executados em conjunto com todas as esferas envolvidas, estimulando o convívio e o consenso entre as partes. A instituição já beneficiou mais de 500 mil pessoas, por meio de seus mais de 240 projetos.

Em quase duas décadas de atuação, a Fundação desenvolveu uma metodologia própria de trabalho chamada Convivência que constrói, que fortalece a atuação comunitária e estimula o envolvimento intersetorial para desenvolver projetos de forma personalizada e com valorização aos ativos locais. A aposta é atuar de forma colaborativa, a partir da vocação da comunidade. Assim, todos os projetos são desenhados de forma personalizada. A Fundação Alphaville faz um diagnóstico, escuta atentamente a comunidade, os seus pontos positivos e suas vulnerabilidades. O trabalho é desenvolvido de acordo com as necessidades e particularidades de cada comunidade. Por isso, há uma grande variedade de temas trabalhados, como geração de renda, resgate histórico, empreendedorismo, criação de cooperativas de reciclagem, entre outros. Isso faz com que cada projeto nasça de acordo com o que há no local, o que ele oferece de melhor e de que forma pode contribuir com aquela sociedade.

A primeira etapa de todos os projetos é o fortalecimento das lideranças locais para, num segundo momento, fortalecer o trabalho conjunto delas – como a criação de associações, por exemplo – para que possam atuar conjuntamente a fim de definir colaborativamente os projetos que façam sentido para o coletivo. Após o início do trabalho, a Fundação ainda acompanha a execução e o desenvolvimento local durante dois anos ou mais, de acordo com a necessidade. Somente após a conclusão de que a comunidade está madura para seguir sozinha, a equipe de trabalho da Fundação Alphaville emancipa o projeto, para que a comunidade possa continuar de forma autônoma.

Case certificado pelo Programa Benchmarking Brasil, edição 2017.