Rede de medicina diagnóstica que representa 68% do mercado total dos cuidados de saúde privados no país, o Grupo Fleury reorganizou o modelo de interação entre as áreas de Pesquisa & Desenvolvimento, Inovação e Digital e criou o Fleury Lab, plataforma que integra profissionais e tecnologia. Nessa a configuração, conseguiu dobrar o número de novos testes em 2018, mapear 150 startups da área de saúde (HealthTechs) e colocar 20 provas de conceito em validação ou andamento.

Em 2000, a expectativa de vida do brasileiro era de 70 anos. Hoje, quase vinte anos depois, é de 76 anos, e em 2050, será de 81 anos. Os padrões são semelhantes aos de países desenvolvidos. Mas enquanto Estados Unidos, França e Canadá gastam com saúde 16,8%, 11,1% e 10% do PIB (Produto Interno Bruto), respectivamente, no Brasil esse percentual fica na casa dos 8%. A Suíça, por exemplo, gasta US$ 9.817,99 per capita, pouco acima dos EUA, com US$ 9.535,95. A expectativa de vida nesses países é de 83 e 79 anos. Já o Brasil tem um gasto com saúde per capita de apenas US$ 780,40 – um valor desproporcional, quando comparada a longevidade lá e cá.

O envelhecimento da população aumenta a incidência de doenças crônicas, que requerem mais atendimentos médicos e exames para um diagnóstico correto. E também exige mais investimentos. Os repasses atuais de verba para a saúde pública vêm encolhendo ano a ano, com consequente sobrecarga e perda de qualidade no atendimento agravadas pelo aumento do desemprego. Hoje, os gastos públicos somam 3,8% do PIB e só devem atingir a média mundial de 6% em 2064, quando a expectativa de vida estará beirando os 90 anos, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Na esfera privada, porém, o caminho percorrido é o inverso. Com tendência de alta, os gastos em saúde do setor representam hoje 4,4% do PIB.

O relatório “Aspectos Fiscais da Saúde no Brasil”, publicado pelo Banco Mundial no final de 2018, destaca que, mesmo o país tendo um sistema de saúde público universal, como o SUS, o gasto privado no Brasil é superior ao gasto público, diferentemente do padrão de países desenvolvidos com sistemas parecidos, como o Reino Unido e a Suécia. De acordo com o Painel Abramed 2018, elaborado pela Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica, as despesas privadas (cidadãos e empresas) realizadas por meio de planos de saúde ou de recursos próprios, representam 57% do total de gastos no Brasil. Entre os dispêndios privados, estão incluídos gastos com saúde suplementar, consultas médicas, exames, hospitais e medicamentos de alto custo.

Com a queda no número de beneficiários de planos de saúde – segmento responsável por 82% da fonte de pagamento do setor privado –, estão surgindo formas diferentes de atendimento, relações entre financiadores, gestores de sistemas de acesso aos serviços e, especialmente, a grande necessidade de informação para a melhoria da eficiência do setor. Os 10 mil centros especializados no país têm perseguido essa eficiência com investimento em tecnologias que permitam, de um lado, realizar exames com maior confiabilidade e entregar diagnósticos acurados com mais rapidez, e de outro, manter-se em movimento em um mercado cada vez mais competitivo.

Sede do Grupo Fleury, no bairro do Jabaquara, em São Paulo (Divulgação)

É o caso do Grupo Fleury, rede de medicina diagnóstica que representa 68% do mercado total dos cuidados de saúde privados no país. O Grupo inclui as marcas Fleury Medicina e Saúde, a+ Medicina Diagnóstica, Laboratório Weimann, Labs a+, Clínica Felippe Mattoso, Diagnoson a+, Serdil e Instituto de Radiologia de Natal. Está presente em hospitais de referência, como Sírio Libanês e Oswaldo Cruz. Pioneiro em diversas frentes no setor de saúde, o Fleury é reconhecido pela excelência técnica, médica, em atendimento e em gestão.

Em 2018, o grupo realizou mais de 3.500 tipos de exames em 37 áreas diferentes. Parte desse resultado se deveu à reorganização no modelo de interação entre as áreas de Pesquisa & Desenvolvimento, Inovação e Digital. As três áreas passaram a compor o Fleury Lab, uma plataforma criada para integrar profissionais e tecnologia e acelerar o processo de transformação digital da empresa. Com essa mudança, o Fleury conseguiu dobrar o número de novos testes em 2018, mapear 150 startups da área de saúde (HealthTechs) e colocar 20 provas de conceito em validação ou andamento.

NOVA FORMA DE TRABALHO

O processo de constituição do Fleury Lab começou em 2016, com a criação da área de Inovação, voltada para parcerias estratégicas e com foco na alavancagem de projetos inovadores que solucionassem as dores de fornecedores, corpo clínico, clientes e da própria companhia. Até então, inovação fazia parte do setor de Pesquisa & Desenvolvimento, responsável, desde a fundação da empresa, por colocá-la na vanguarda da medicina diagnóstica.

Durante 90 anos, a área de P&D colocou a marca do pioneirismo na companhia. O Fleury foi o primeiro a implantar um sistema informatizado de atendimento ao cliente e um sistema de código de barras para identificação segura de exames; a oferecer soluções de medicina integrada; a disponibilizar resultados de exames pela internet e com dados históricos; a oferecer check-up diversificado; a fazer gestão do conhecimento e; a usar inteligência artificial para testar e validar exames para auxiliar a tomada de decisão médica na assistência personalizada.

Seu processo de diagnóstico de alta qualidade envolve mais de 2.200 médicos, sendo 1.700 deles especialistas, 178 mestres, 218 PhDs e 71 professores titulares. Considerado Laboratório de Referência, o Fleury fornece testes de alta complexidade para mais de 600 laboratórios em todo o país. Seu corpo clínico publicou, somente em 2018, 138 artigos em revistas científicas de várias áreas, como Blood Journal, Clinical Reviews in Allergy & Immunology, Emerging Infectious Diseases e Antimicrobial Agents and Chemotherapy.

Até a criação da área de Inovação, era P&D o setor responsável pela identificação, desenvolvimento e implantação das soluções para as diversas demandas da companhia. Agora, a equipe concentra seus esforços principalmente em pesquisa e na interação com universidades. A empresa tem mais de 50 projetos de pesquisa sendo desenvolvidos em conjunto com universidades de São Paulo, que podem ser convertidos em novos diagnósticos ou novos conhecimentos. Nem por isso deixa de conversar com o setor de inovação, que interage com outras empresas por meio de plataformas abertas, com foco em novas tecnologias.

Laboratório de análises clínicas de uma das unidades do Fleury (Divulgação)

AMBIENTE DE COCRIAÇÃO

A nova área de Inovação tem o olhar voltado para as startups e as pequenas e médias empresas. Por isso, a equipe chegou à conclusão de que a melhor maneira de fazer o novo conceito dar certo seria em um ambiente de coinvenção dedicado à geração de negócios baseados em tecnologia por meio da colaboração entre startups, grandes empresas, consultores, mentores, investidores e parceiros de tecnologia. Depois de pesquisar os centros de empreendedorismo existentes na capital paulista, a empresa optou por uma sala no InovaBra Habitat, na região da Consolação, onde mantém uma equipe para a prospecção de startups.

Na mesma região, montou um espaço com capacidade para 80 pessoas, profissionais multidisciplinares, como desenvolvedores, gerentes de produto e designers de experiência de usuário, se dedicam ao desenvolvimento de projetos como novos modelos de atendimento digital a clientes e médicos; aceleração e evolução do Fleury Genômica, plataforma de e-commerce para exames genéticos, assessoria médica digital via chatbots, aplicativos de resultados de exames, websites para as marcas do Grupo e digitalização do serviço Fleury em Casa. Manter a equipe nesses espaços permitiu à empresa estar em contato e mapear as HelthTechs, startups dedicadas a soluções disruptivas na área de saúde.

Com a equipe de Inovação estruturada, a interação com as áreas de Pesquisa & Desenvolvimento começou a sofrer mudanças.  P&D tem um corpo de profissionais técnicos responsável por entregar os novos testes que a empresa desenvolve. Até a criação da área de Inovação, o grupo pensava, pesquisava e resolvia o problema sozinho ou com a ajuda de outras equipes da empresa ou de universidades. O tempo de desenvolvimento de uma solução era demorado. A partir da criação da Inovação, P&D começou a interagir também com as startups mapeadas no ambiente de coinvenção, agregando as soluções desenvolvidas por elas. O foco em pontos estratégicos levou a um ganho de velocidade no desenvolvimento das soluções necessárias. Em 2016, quando a área foi criada, o Fleury tinha em produção 80 novos testes. Em 2018, foram 177, mais que o dobro.

A área de Inovação utiliza o método Ágil, que divide um projeto em vários miniprojetos para ganhar agilidade e minimizar os riscos no desenvolvimento de um software em curtos períodos de tempo (iterações). Cada um desses miniprojetos passa pelas fases de planejamento, análise de requisitos, elaboração do projeto, codificação, teste e documentação e pode ser implantado sem riscos ao fim de cada iteração, quando a equipe responsável reavalia as prioridades do projeto para iniciar o desenvolvimento de novas funcionalidades.

A estruturação da própria equipe de inovação segue o método Ágil, que enfatiza a comunicação em tempo real, cara a cara, e coloca numa mesma sala todas as pessoas necessárias para desenvolver um software (programadores, clientes, testadores, projetistas, redatores técnicos e gerentes). O grupo de inovação do Fleury parte do princípio que, trabalhando dessa forma, é possível manter o foco no que quer o cliente – no caso as diversas áreas da empresa e grandes fornecedores –, respirar inovação e conversar com as gerações futuras sem perder a qualidade e a credibilidade que marcam as nove décadas da companhia.

Com a equipe e o novo ambiente montados, a área de Inovação passou a interagir mais com P&D para levantar as várias demandas relacionadas ao core business da empresa (testes diagnósticos) e mapear as startups que pudessem desenvolver as soluções necessárias para a realização de novos exames usando tecnologia personalizada e não um software pronto para ser integrado à rotina. Desde que foi criada, a área de Inovação mapeou mais de 200 startups e está com 30 projetos em avaliação e cinco projetos sendo rodados com startups, como o uso de inteligência artificial para identificação de pneumonia em imagens de raios-X, para a detecção precoce de demência, para a detecção de anormalidades em tomografias e a sinalização da necessidade de priorização do tratamento e a avaliação de testes não invasivos de detecção da bactéria causadora de úlcera.

INTERFACES DIGITAIS

Para completar os pilares no qual o Fleury Lab se apoia, no final do ano passado a empresa criou a área Digital, responsável pela jornada de experiência dos stakeholders (médicos, colaboradores, fornecedores, parceiros e clientes) em seus vários pontos de contato com a empresa. É essa área que define como o resultado do trabalho de P&D e Inovação é mostrado para o cliente no site, em dispositivos móveis, na rede, na intranet, na internet. Nos últimos seis meses, as 45 pessoas que formam a equipe da área Digital estão focadas no core do negócio e vêm interagindo com as outras duas áreas do Fleury Lab na busca de soluções que tornem a experiência do usuário mais agradável, como melhorias no agendamento de exames, no atendimento pelo site e pelo telefone e no atendimento móvel. Mais recentemente, a área desenvolve um serviço voltado para o corpo clínico, chamado Médico Prescritor, que dá uma segunda opinião sobre um determinado diagnóstico.

As três áreas que compõem o Fleury Lab já interagiam entre si em determinadas situações. Com a nova configuração, que entrou em operação no início de 2019, essas áreas passaram a trabalhar em conjunto com a finalidade de trazer maior valor agregado aos serviços prestados por meio da tecnologia e da informação. Mas para fazer a nova sinergia dar certo, as equipes tinham que estabelecer na empresa a cultura da transformação digital. A tarefa coube à equipe de Inovação, que utilizou um serviço mantido pela empresa há 12 anos, a Central de Ideias, para disseminar a cultura do Fleury Lab. A Central de Ideias recebe sugestões de melhorias e críticas de colaboradores e está sendo usada como meio de comunicação e de levantamento de demandas. Mais de 22 mil ideias já foram inseridas na plataforma e 1.500 delas já foram implantadas. Além da Central de Ideias, a empresa mantém uma plataforma aberta em que fornecedores estratégicos podem sugerir melhorias. Desde que a área de Inovação foi criada e implantou esse sistema, o Fleury já conseguiu economizar R$ 4,1 milhões implantando as ideias vindas por essa plataforma.

A área também desenvolveu treinamentos com foco em inovação para os novos coordenadores da empresa, transformando-os em disseminadores da cultura de transformação digital. Para o público externo, a área criou um blog em que todas as novidades e avanços da empresa são publicados. Agora, prepara-se para a organização do Prêmio Fleury de Inovação, que vai distinguir os destaques inovadores em medicina diagnóstica, um setor que fatura R$ 35,4 bilhões ao ano e é responsável pela geração de 241.931 empregos no país.