A necessidade de redução de custos na distribuição de medicamentos a pacientes com doenças cancerígenas motivou o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) a estruturar uma campanha de devolução de produtos não utilizados por pacientes. As doações aumentaram 125% de 2014 para 2015 e a economia foi de meio milhão de reais. O principal desafio era estabelecer um local de referência para as devoluções com controle de estoque, com o envolvimento de profissionais de diversas áreas do Instituto.

ICESP

Ailton Ermelino da Silva Junior – Farmacêutico Clínico

Cíntia de Oliveira Sousa – Farmacêutica Chefe Ambulatorial

O Icesp 

O Icesp está localizado na região central da capital e integra o complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), uma autarquia especial vinculada ao Governo do Estado de São Paulo. Esse complexo é reconhecido como o maior e mais importante centro de atendimento médico e hospitalar da América Latina.

Também conhecido pela sigla Icesp, a unidade inicialmente foi projetada para abrigar um centro médico dedicado à saúde da mulher. Com o aumento da incidência dos casos de câncer no Brasil, a exemplo do que ocorre em todo o mundo, o Governo do Estado transformou-o em uma unidade voltada exclusivamente à oncologia.

O início de suas atividades aconteceu em 2008, como Organização Social de Saúde (OSS), por meio de uma parceria firmada entre a Fundação Faculdade de Medicina, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e a Secretaria de Estado da Saúde.

Desde sua implantação, a assistência, o ensino e a pesquisa formam o alicerce da instituição, essência mantida até hoje e que faz com que o hospital seja reconhecido como um centro de excelência em âmbitos nacional e internacional.

São realizadas mensalmente no hospital 28.000 consultas médicas, e somente na farmácia ambulatorial do Instituto são atendidos em média 600 pacientes diariamente, que são provenientes de altas das unidades de internação, pronto-socorro e ambulatórios, onde são fornecidos tanto os medicamentos quimioterápicos quanto os medicamentos para controle de sintomas e de outras comorbidades, proporcionando ao paciente o acesso integral aos medicamentos durante o seu tratamento. Pelos serviços de excelência prestados, em 2014 o hospital conquistou um dos maiores certificados de qualidade na área da saúde, sendo acreditado pela Joint Comission International.

Gerenciamento de Medicamentos – Criação do Projeto de Devolução de Medicamentos

Os medicamentos são a principal ferramenta para a recuperação ou manutenção das condições de saúde da população e, nos últimos anos, o gasto farmacêutico vem se tornando uma ameaça à sustentabilidade dos sistemas públicos de saúde de muitos países.

Sendo a instituição detentora do case um hospital público, com recursos limitados, se faz necessário um processo constante de estudos relacionados à farmacoeconomia. Para que o paciente usufrua dos benefícios do medicamento em seu tratamento; um aspecto importante está relacionado ao modo como a Assistência Farmacêutica está estruturada para atender à demanda, tendo em vista que, além das atividades de seleção, aquisição, armazenamento e distribuição, também está envolvida a orientação sobre a utilização dos medicamentos.

Portanto, o objetivo da implantação do case foi estimular a devolução de medicamentos não utilizados pelos pacientes durante o tratamento por quaisquer que sejam os motivos, evitar o descarte ou o uso inadequado dos mesmos e estimar o valor desses medicamentos devolvidos à instituição.

Principal motivação

A principal motivação foi a necessidade do paciente e da instituição em possuir um local referenciado para a devolução dos medicamentos que foram retirados na farmácia e não foram utilizados durante o tratamento do paciente, evitando que ele realize o descarte inadequado do medicamento. Impede-se ainda que sejam descartados medicamentos que estão aptos para reintegração ao estoque, medicamentos estes conservados em local adequado, com embalagem íntegra e lacrada e dentro do prazo de validade.

Implantação

Para a implantação do processo se fez necessária a participação de diversos profissionais, de diferentes setores. O início foi o processo de divulgação, realizado pelo grupo de humanização que faz a apresentação dos setores do hospital aos pacientes que irão realizar sua primeira consulta. Os pacientes, antes de iniciar o tratamento, já recebem a informação de que todo e qualquer medicamento não utilizado durante o tratamento pode ser devolvido à farmácia. O recebimento dos medicamentos doados é realizado por um oficial administrativo na recepção da farmácia ou por um auxiliar técnico de saúde, nos guichês de atendimento.

Em sala específica para a avaliação, outro auxiliar técnico realiza a triagem dos itens, sob a supervisão de um farmacêutico, e, após, são enviados ao setor de logística, onde são reconferidos e onde são realizados os pedidos das notas fiscais. Portanto, o processo envolve de forma sinérgica os setores de humanização, farmácia, logística e fiscal do hospital.

Adesão dos pacientes ao projeto

O início do processo de recebimento de medicamentos, com a criação de procedimento operacional padrão, ocorreu em 2014; porém, o aperfeiçoamento tanto do processo quanto dos indicadores ocorreu em 2015, já com a rotina mais bem estabelecida. Em 2014 o número de processos recebidos foi de 607 devoluções, saltando para 1.371 em 2015, um aumento de 125%. Este aumento é devido à intensa divulgação e consequente criação da cultura de devolução de medicamentos pelos pacientes e também ao aperfeiçoamento dos relatórios de recebimento.

Benefícios obtidos

Durante o ano de 2015, foram analisados 1.371 processos de devolução de medicamentos, sendo aprovados para reintegração ao estoque 567.442 itens, proporcionando uma economia significativa para a instituição no valor de R$ 508.241,99:

Como motivos das devoluções, foram obtidos os dados: Alteração de prescrição (449); Óbito do paciente (428); Medicamento “Se necessário” (286); Outros (68); Sobra (54); Motivo não identificado (39); Reação adversa (34); Falta de adesão ao tratamento (8); Suspenso (4); Alergia (1). Por meio desses dados foi possível identificar melhorias a serem aplicadas, como, por exemplo, a dispensação de quantidade menor de determinados itens.

Também foi possível mensurar e realizar o descarte adequado de medicamentos inaptos para o consumo, totalizando 1.348 kg de resíduos descartados, evitando que eles tenham sido descartados incorretamente pelo paciente e assim provocar a contaminação do meio ambiente.

Dessa forma, a implantação do case possibilitou o atendimento a diversos interesses da instituição, sendo um deles a promoção ao descarte adequado de medicamentos. Isso evitou que o paciente descartasse os medicamentos não aptos para consumo em lixo comum (lixo de banheiro, de cozinha, direto ao solo ou esgoto), o que poderia causar graves danos ao meio ambiente. Contribuiu também para a conscientização dos pacientes sobre o uso correto dos medicamentos e o que fazer com as respectivas sobras/interrupções de tratamento; e a reintegração ao estoque dos medicamentos que foram armazenados da forma correta, que estão com a embalagem íntegra, lacrados e dentro do prazo de validade, gerando receita ao hospital.

Recomendações e conclusões

Com o valor obtido da devolução dos medicamentos que foram reinseridos no estoque da farmácia, obteve-se uma economia significativa, com valores que deixaram de ser gastos na aquisição de medicamentos e serem direcionados a outras necessidades da Instituição.

Desse modo, percebe-se a importância da devolução de medicamentos, que deve ser estimulada por permitir uma destinação adequada, tanto dos medicamentos aptos para consumo quanto dos que serão descartados. Com a implantação do case, tal prática demonstrou grande benefício para a instituição e para a população de pacientes atendidos.

Este case é certificado pelo Programa Benchmarking Brasil edição 2016.