A Portonave S/A – Terminais Portuários de Navegantes é um terminal privado localizado em Navegantes, Santa Catarina. A empresa é líder de mercado no estado desde 2010 – respondendo por 54% da movimentação de contêineres – e busca alinhar o seu crescimento ao desenvolvimento sustentável. Prova disso é o projeto de eletrificação dos transtêineres (RTG na sigla em inglês), guindastes que fazem o movimento do contêiner do caminhão para o pátio de armazenagem e vice-versa.”

PORTONAVE

Marcelo Diniz é gerente de Manutenção da Portonave
Juliano Adão é supervisor de Elétrica da Portonave
Gabriel Telles é engenheiro de Segurança e Meio Ambiente da Portonave
Edson Torres é consultor em Gestão de Carbono

Com a implantação do Busbar System (barramento de transporte de energia), os 18 equipamentos do Terminal passam a ser alimentados com energia elétrica e não mais com geradores a diesel. Um ganho para o meio ambiente e também para a produtividade do Terminal.

O sistema de tecnologia alemã é o mais moderno do mundo e muito utilizado em portos da Europa e da Ásia. Seu funcionamento exige a instalação de um conjunto de barras condutoras com suportes de aço em toda a extensão de cada área de empilhamento do terminal. Cabos de baixa tensão conduzem a energia das subestações até os barramentos e para o RTG através de um braço coletor automático conectado ao barramento. Esse processo é todo automatizado e não necessita de intervenção humana. O equipamento possui um sistema de segurança que evita possíveis choques elétricos ao contato com o equipamento.

A área de expansão do pátio de contêineres recebeu a primeira etapa do projeto, com a instalação do sistema em oito RTGs. A ideia foi iniciar as atividades operacionais na área de expansão do Terminal – o pátio de contêineres foi duplicado em agosto de 2015 – já com a tecnologia em funcionamento. Entre os motivos para a mudança estão: redução do consumo de diesel, baixo custo de manutenção, aumento de produtividade nos RTGs, melhoria na confiabilidade dos equipamentos e significativa redução de gases poluentes.

A Portonave investiu R$ 25 milhões para a implantação do sistema. Com o projeto, o consumo de diesel do Terminal será reduzido em aproximadamente 62%. Com o uso de geradores a diesel nos RTGs, são emitidos 2,6 milhões de toneladas/ano de gases do efeito estufa. Com a troca, a emissão passa a ser de 83 mil toneladas/ano. O número representa uma redução de 98% na emissão decorrente dos equipamentos.

A DEFINIÇÃO DO PROJETO

Para implantação e início do projeto, primeiramente foram estudadas as tecnologias disponíveis no mercado, as quais eram: cable reel, cable chain e busbar. Após as análises, chegamos à conclusão que, devida à característica do Terminal, a melhor opção seria o sistema busbar, pois os equipamentos precisam trocar de quadra com frequência, onde a tecnologia escolhida se sobressai devido a sua agilidade, segurança e custo-benefício.

Após a escolha da tecnologia busbar, iniciamos o desenvolvimento do escopo do projeto, termos de referência, elaboração de projetos elétricos, civis, entre outros. Também foi importante a integração das equipes na apresentação e desenvolvimento do
projeto, a fim de atender e otimizar nossos equipamentos e operações.

DIFICULDADES E LIÇÕES APRENDIDAS

• Definição da tecnologia, pois temos no mercado algumas soluções para eletrificar os equipamentos, em que muitas análises e estudos foram demandados;

• Consolidar as informações dos desenhos e cronogramas: civis, elétricos e mecânicos, em que notamos a importância de as plantas do terminal estarem georeferenciadas. Outro item importante foi que os desenhos dos equipamentos e infraestrutura estavam atualizados, bem como toda a equipe de projeto envolvida e engajada;

• Implantação do busbar na área já existente do Terminal. Tivemos duas fases do projeto: na primeira fase, o sistema foi instalado na área de expansão do Terminal, onde não possuíamos contêineres armazenados, o que facilitou os trabalhos das equipes. Já na segunda fase, em nossa área existente, tínhamos contêineres posicionados, equipamentos, veículos e terceiros trabalhando no local, onde encontramos uma fase crítica do projeto, pois tivemos que manter contato constante com as áreas de segurança, operações e manutenção, para manter a segurança dos colaboradores, a produtividade e o cumprimento do cronograma da eletrificação, sem a necessidade de esvaziar as quadras de contêineres, evitando impacto nas operações;

• O Retrofit nos RTGs apresentaram algumas dificuldades no início das atividades, pois tivemos que implantar uma nova tecnologia nos equipamentos já existentes, devido ainda não possuírem uma pré-instalação para suportar a pretendida alteração. O sucesso e eficácia no Retrofit se tornaram possível com a disponibilização de uma equipe de Engenharia da Portonave para acompanhar e apoiar os trabalhos full time, possibilitando assim o contato da equipe com a nova tecnologia
e principalmente tirar as dúvidas da equipe contratada de forma ágil, antecipando as atividades do cronograma;

ESTRUTURA NECESSÁRIA PARA IMPLANTAÇÃO

Quando a Portonave expandiu sua retroárea, já previa a eletrificação dos RTGs, sendo necessária a instalação de uma nova subestação de distribuição com uma potência de 10 MVA, com saídas para atender as demandas atuais e futuras do terminal.

Para garantir confiabilidade e mobilidade ao projeto de eletrificação, estudamos a instalação de subestações móveis, em que seria possível trocá-las no caso de falhas. Também foi levada em consideração a possibilidade de alteração de posicionamento da subestação, garantindo o aproveitamento do Eletrocentro e sem necessidade de obras.

Para atender a tecnologia do busbar na área de expansão, tivemos que instalar dois Eletrocentros: um com potência de 1.500 kVA e outro de 2.000 kVA, que alimentam as 13 novas quadras da área de expansão do Terminal.

Para o pátio existente, tivemos que adquirir quatro cubículos de média tensão a ser incluídos em nossa subestação de distribuição existente. Como em nossa antiga área tínhamos 16 quadras com maior extensão, foram necessárias a instalação de quatro novos Eletrocentros: dois com potência de 2.000 kVA e outros dois com 1.500 kVA.

Aplicamos nos Eletrocentros as mais modernas e seguras tecnologias disponíveis no mercado, como por exemplo:

• Cubículos de média tensão totalmente isolados a ar;

• Painéis de baixa tensão testados e aprovados (TTA);

• Sistema de alarme e combate a incêndio por meio de gás NOVEC;

• Sistema de climatização por meio de condicionadores de ar do tipo wall mounted;

• Sistema de pressurização positiva das salas.

• Foram usados em ambas as fases 3 km de barramento trifásico back to back, totalizando assim 24 km instalados e 29 quadras eletrificadas em todo o Terminal. Também foram utilizados 21 km de cabos elétricos para alimentar os barramentos nas quadras e instalados 29 painéis de alimentação, um para cada quadra eletrificada. Passaram por retrofit 18 RTGs e, além das modificações, foram substituídos 13 geradores antigos, devido ao fim de sua vida útil, e instalados novos equipamentos para garantir a confiabilidade das operações no Terminal.

ALTERAÇÕES DO CLIMA

As mudanças climáticas são caracterizadas por alterações no estado do clima, com variação de suas propriedades, persistindo durante um longo período de tempo. Essas alterações do clima podem ser desencadeadas por processos naturais, como as oscilações dos ciclos solares e erupções vulcânicas ou por mudanças antropogênicas, como a mudança do uso e ocupação do solo. No Quinto Relatório de Avaliação do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) é afirmado que possivelmente 95% do aumento na temperatura média global estão sendo influenciados por ações antrópicas, principalmente pela queima dos combustíveis fósseis e respectivas emissões dos gases de efeito estufa (GEE), como o dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). As emissões dos gases de efeito estufa são resultantes de diversas atividades antropogênicas,
em que esses gases tendem a se concentrar na atmosfera, gerando o efeito estufa intensificado e o aumento da temperatura média da atmosfera (aquecimento global).

A médio e longo prazos, o Brasil irá aumentar suas emissões de GEE devido ao crescimento econômico baseado no consumo de produtos e serviços. Como várias ações vêm sendo realizadas para reduzir as emissões do setor de mudança do uso da terra e florestas, o setor energético vem ganhando espaço. No Terceiro Inventário Brasileiro de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa, o setor energético salta para uma representatividade de 29,2% em 2010, frente aos 8,8%
de 2004. As estimativas para 2012 é que o setor de energia represente 37% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil.

As emissões portuárias dos navios contribuem com uma pequena parcela das emissões da navegação global. No entanto, essas emissões podem ter um efeito ambiental grave nas regiões costeiras que possuem portos marítimos densos, com muitas atividades de embarque e desembarque. Nesse sentido, para alcançar a meta de não elevar a temperatura média do planeta acima do limite de 2 °C e com esforços para não ultrapassar 1,5 °C, firmadas na COP21 em dezembro de 2015 em Paris, a concentração dos GEE na atmosfera deverá se estabilizar em torno de 450 ppm (partes por milhão). Atualmente estamos com uma concentração de 400 ppm. Para que isso ocorra, as emissões de GEE teriam de entrar em uma curva descendente já a partir de 2015.

O Brasil, sendo um dos dez maiores emissores do mundo, propôs uma redução de 37% nas emissões até 2025, e de 43% até
2030, com base nos níveis registrados em 2005, conforme apresentado nas INDCs (Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas). Isso só será possível se buscarmos uma economia de baixo carbono. Essa é a expressão de ordem para a economia do século XXI e significa inovar os processos produtivos e as soluções tecnológicas que resultam em menor impacto sobre o clima do planeta, com destaque para a busca de eficiência e alternativas energéticas, redução de emissões de GEE e gestão em sustentabilidade (Fundação Getúlio Vargas). Isso implicará um enorme esforço tanto por parte das instituições privadas quanto por parte das públicas.

A Portonave, diante desse cenário e baseada em diretrizes nacionais como o Plano Nacional sobre Mudança do Clima, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187/2009) e nos Planos Setoriais de Mitigação e Adaptação, definidos pelo Decreto nº 7390/2010 e em diretrizes internacionais como o Protocolo de Quioto e Acordo de Paris (COP21), decide de forma proativa buscar a inserção na economia de baixo carbono, almejando competitividade e a sustentabilidade. Como é sabido, o tripé da economia de baixo carbono é formado pelo o diagnóstico das emissões corporativas de GEE, a implementação da gestão de carbono e a divulgação de ações e engajamento dos stakeholders.

INVENTÁRIO DE EMISSÕES

Para iniciar a gestão das emissões dos GEE, a Portonave, que é um operador portuário, realiza desde 2010 o Inventário Corporativo das Emissões de Gases de Efeito Estufa. O objetivo é proporcionar um diagnóstico qualitativo e quantitativo das emissões dos GEE por fontes de emissões e sumidouros (remoções de carbono da atmosfera) e saber quais os gases de efeito estufa estão sendo emitidos. A metodologia é baseada na NBR ISO 14064-1/2007,1 no IPCC 20062 e no Programa Brasileiro GHG Protocol. Todas as fontes de emissões e os sumidouros foram identificados e contabilizados, abordando os escopos 1 (emissões diretas), 2 (Emissões indiretas por uso de energia) e 3 (indiretas). As principais emissões diretas da Portonave estão relacionadas à combustão móvel dos equipamentos off-road, como os transtêineres (RTG), terminais-truck (TT) e empilhadeiras. Nas emissões do escopo 2, temos o consumo de energia elétrica, tendo como principais equipamentos os portêineres (STS) e o consumo de energia pela área reefer.

Em 2015 a Portonave emitiu um total de 10.746,013 tCO2e (tonelada de dióxido de carbono equivalente) provenientes da geração das fontes de emissão de GEE do escopo 1 e 2. Comparando com as emissões de 2014, houve uma redução de 4,28
%. Em relação ao ano base (2010) o aumento foi de 64,84%. Esse aumento era esperado, uma vez que a Portonave teve um crescimento significativo em termos de movimentação de TEUs (unidade de medida equivalente a um contêiner de 20 pés) em relação a 2010.

Consequentemente o aumento na movimentação de TEUs faz com que se tenha maior utilização dos equipamentos operacionais pesados, como os transtêineres, portêineres, empilhadeiras e terminais truck. A Figura 1 apresenta a evolução das emissões dos gases de efeito estufa da Portonave.

Na Figura 2 podemos verificar que a fonte de emissão de gás de efeito estufa que mais impacta para a Portonave é a combustão móvel, representando 60,44% das emissões em 2015. O veículo off-road que mais emite gás de efeito estufa é o transtêiner (RTG), sendo que em 2015 emitiu 3.994,041 tCO2e. O transtêiner é um guindaste que faz o movimento do contêiner do caminhão para o pátio de armazenagem e vice-versa.

As emissões indiretas da Portonave relacionadas ao consumo de energia elétrica (escopo 2) totalizaram 4.188,397 tCO2e, representando um crescimento de 4,88%. Mesmo a média do fator de emissão para a energia elétrica em 2015 diminuindo
8,19%, este ainda está alto se comparado a 2010. Esse fato está relacionado aos períodos de maior estiagem, que ocorreram em regiões estratégicas do Brasil, impulsionando assim a geração de energia pelas termoelétricas.

A Portonave vem desenvolvendo vários programas com o intuito de se adequar às exigências de uma economia de baixo carbono. Podem ser citados a reciclagem de resíduos sólidos, o sistema de tratamento de efluentes aeróbico e o incentivo do uso de bicicletas pelos colaboradores no trajeto realizado para o trabalho. A reciclagem de resíduo sólido é uma estratégia para o que chamamos de carbono evitado. Todo material que é reciclado consiste em emissões evitadas de GEE, por não haver decomposição do resíduo e, como há uma transferência de responsabilidade no processo de fabricação do novo material reciclado, as emissões resultantes deste último processo são de autoria do organismo reciclador que adquiriu o material descartado como seu insumo. A Portonave reciclou e/ou reutilizou 2.404,912 t de resíduos sólidos em 2015; portanto, deixou de emitir 1.111,789 tCO2e.

Com o objetivo de desenvolver estratégias efetivas para a redução das emissões dos gases de efeito estufa, a Portonave desenvolveu o Projeto de Eletrificação dos Transtêineres. Em termos de redução de emissões de GEE, primeiramente devemos
analisar a linha de base, ou seja, as emissões totais da Portonave sem a implantação do projeto. Na Figura 4 pode ser observado que os transtêineres representam em média 39,15% das emissões totais do escopo 1 e 2 da Portonave, variando conforme a movimentação de TEUs.

Com base em projeções de crescimento na movimentação de TEUs, de 5% ao ano, foi desenvolvido um cenário de linha de base até 2020 a fim de avaliar as reduções de emissões absolutas, uma vez que foi implantado o projeto de eletrificação dos transtêineres. Foi verificado que ainda são utilizados uma média mensal de 368 L de óleo diesel por transtêiner, e o consumo médio mensal de energia elétrica foi de 12.100 kWh. É importante salientar que dessa forma houve uma redução em torno de
95% de consumo de óleo diesel.

Foram estimadas as emissões de GEE dos transtêineres utilizando os fatores de emissões com base em 2015. Observou-se uma redução anual em torno de 87% das emissões dos GEE relativas à utilização dos transtêineres e uma redução em torno de 32% das emissões absolutas da Portonave. Quando verificado o cenário de baixo carbono projetado até 2020, a Portonave irá reduzir em torno de 26.870 tCO2e conforme pode ser observado na figura 4.

CONCLUSÕES

O projeto de eletrificação dos transtêineres com o objetivo de redução das emissões de gases de efeito estufa mostrou-se viável e eficiente. Mesmo utilizando-se de estimativas probabilísticas, foi observada uma redução anual em torno de 87% das emissões dos GEE relativas e em torno de 32% das emissões absolutas da Portonave. Nos próximos anos a Portonave poderá reduzir em torno de 26.870 tCO2e.

Definitivamente, a Portonave está inserida na ecoMarcelo Diniz é gerente de Manutenção da Portonave Juliano Adão é supervisor de Elétrica da Portonave Gabriel Telles é engenheiro de Segurança e Meio Ambiente da Portonave Edson Torres é consultor em Gestão de Carbono nomia de baixo carbono, de forma proativa, antecipando-se a futuras metas de redução compulsória. Como a sustentabilidade é uma busca contínua de aperfeiçoamento, novos projetos deverão ser aplicados
visando reduzir ainda mais as emissões de GEE; e as emissões que não puderem ser reduzidas serão neutralizadas. Esse é o caminho para uma Portonave carbono zero.