Maior plataforma brasileira de ofertas locais, o Peixe Urbano recorreu a um sistema de treinamento comportamental de seus colaboradores. Depois que a empresa precisou mudar a sede do Rio de Janeiro para Santa Catarina e, por consequência, teve que renovar metade da folha de funcionários, os gestores temeram que a cultura da organização se perdesse pelo caminho.  A arquitetura 100% de ensino a distância (EAD) assegurou o alcance de todos os 450 colaboradores. Duas teses sustentaram o trabalho: a Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva – de autoria do israelense Reuven Feuerstein, que define o aprendizado como mudança, mas diz que nem toda mudança é estrutural, algumas são superficiais –, e a Heutagogia método no qual o aprendiz é quem determina como, quando e o que deve ser aprendido. Como resultado da iniciativa, as pesquisas de clima mostraram um alto nível de satisfação dos funcionários.

A organização sempre foi orientada por princípios de governança, em que se destacam como valores a comunicação aberta, o respeito, o foco, a excelência e a paixão. Nas pesquisas de clima, altos índices de satisfação são observados, levando à crença de uma cultura forte, e daí se pode trabalhar o “como fazemos o que fazemos” de maneira integrada aos valores do Peixe Urbano.

O projeto “Main Line: Nossos valores, nossas práticas?” disseminou esses valores, fortalecendo a cultura da empresa. A abordagem tocou nos valores de cada colaborador para valorizar o ambiente social do trabalho. A ideia não era abordar os valores por si só, como uma necessidade identificada pela área de Recursos Humanos, aglutinadora das demandas da empresa como um todo. O Peixe Urbano pretendia que as experiências com as ações de capacitação no entorno do tema atravessassem as percepções pessoais e ganhassem a dimensão da cultura da organização. O desafio era assegurar uma arquitetura inovadora, interessante, consistente e sustentável financeiramente.

A viabilidade do trabalho passou por três pontos críticos de atenção e controle: os canais de comunicação para engajamento das pessoas, plataforma EAD e custos. O investimento deveria caber no budget anual de R$ 380 mil. Após pesquisas de mercado, o projeto foi formulado com o custo equivalente a 12% do orçamento, cerca de R$ 45 mil.

A aderência dos participantes à metodologia foi muito importante para que a ação ganhasse a dinâmica necessária ao aprendizado. Para que o treinamento alimentasse e concretizasse os objetivos, o tempo de capacitação tinha duração máxima de 90 minutos. Nas ações de EAD sempre havia construção conceitual seguida de reflexão dialógica de alto impacto. A plataforma utilizada foi a WebEx, que permitia troca em tempo real. Alguns formatos foram propostos – e bem aceitos: leituras e reflexões, respostas a inventários (aproximação ao autoconhecimento) e videocases.

Ao longo de nove meses, 24 turmas foram criadas, cada uma com uma média de 20 participantes. Todo o trabalho foi realizado de forma remota, on-line. Ao todo, foram 7.767 horas de duração – uma média de 17 horas por profissional, tempo considerado curto para uma ação de alto impacto. A remodelagem dos comportamentos favoreceu desempenhos (associados ao crescimento do colaborador na empresa) e resultados (associados ao crescimento da empresa). O rigor no cumprimento do processo foi fundamental para o sucesso do projeto.

DEMANDA

A demanda do projeto passou por provocar maior estreitamento entre os conceitos do que são os valores para a organização e os comportamentos a serem praticados no dia a dia. O ponto máximo foi em 2017, quando a o Peixe Urbano passou por transformações muito impactantes e a matriz localizada no Rio de Janeiro foi transferida para Florianópolis, em Santa Catarina. A mudança ocasionou a necessidade de substituição de quase 200 funcionários, bem como a mudança de outros 50 colaboradores vindos de outras cidades. Para assegurar a sustentabilidade e perpetuação da cultura da companhia e a correta absorção dos valores pelos novos colaboradores, surgiu a ideia do treinamento comportamental.

OBJETIVOS

O principal objetivo era aproximar e polinizar os valores à cultura sistêmica da empresa. O Peixe Urbano pretendia que os colaboradores se integrassem à cultura da empresa. Para isso, o treinamento foi aplicado sobre os valores da empesa no seguinte escopo: 1) Comunicação aberta: todos devem e podem se conectar por diferentes canais de comunicação com qualquer área, com qualquer pessoa. Não existem “salas” reservadas para os diferentes níveis hierárquicos; diretores, gerentes, especialistas, analistas e jovens aprendizes compartilham espaços comuns, e as trocas de informações são continuamente estimuladas. 2) Respeito: todos podem divergir e devem aceitar as diferenças como necessárias à pluralidade dos tempos atuais e do próprio negócio. 3) Foco: todos sabem quais são as suas metas individuais e as metas gerais, contam com ferramentas, processos e procedimentos para alcançarem seus resultados mediante os esforços calibrados e direcionados. 4) Excelência: do erro nasce o inconformismo que gera contínuas melhorias, as quais trazem à tona a necessidade de “fazer menos do mesmo” e “mais com menos”. 5) Paixão: o negócio vive dentro de toda a cadeia de relacionamentos (colaborador + parceiros de negócios + clientes + acionistas). Mais uma vez, a inquietação diante de um problema e a busca por soluções inovadoras sustenta a automotivação e fortalece as relações de confiança.

PÚBLICO-ALVO

Orientada a atender 450 profissionais – 100% dos colaboradores –, a organização das turmas contemplava pessoas de diferentes áreas e estados, com o objetivo de integração. Todos os cargos da companhia foram envolvidos, da direção aos serviços gerais. Participaram: 11 diretores, 30 gerentes, 27 coordenadores, 78 analistas, 61 assistentes, 86 executivos de vendas, 21 estagiários, 97 atendentes de relacionamento, 12 engenheiros, 8 desenvolvedores, 10 menores aprendizes e 9 auxiliares de serviços gerais. A premissa do projeto era extrair, a partir das experiências particulares, o sentido necessário para a sustentação das relações interpessoais.

COMUNICAÇÃO

O projeto foi amplamente divulgado, com as equipes de Marketing e Comunicação Interna do Peixe Urbano dando apoio. Paralelamente às convocações, os valores da empresa eram publicados em todas as áreas das unidades. Banners eram colados nas paredes e símbolos foram criados para representar internamente os valores. Tudo foi feito para contagiar as pessoas e ampliar o interesse pelo treinamento. Toda a empresa compartilhava reflexões e destacava a iniciativa como importante e positiva.

METODOLOGIA

O trabalho inovou com a introdução da Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva, que prevê a mudança no padrão de inteligência a partir da aquisição de novos repertórios de respostas comportamentais integradas às seguintes esferas: cognitivo (social), emocional e a Heutagogia, prática reveladora do conhecimento autodirigido, quando cada colaborador tem a responsabilidade, as ferramentas e as reflexões para seguir com o próprio desenvolvimento profissional. As ações de capacitação ocorreram dentro do que é chamado “Café com Aprendizado” e “Chá das 5 e ½”.

Por meio de comunicados específicos, os colaboradores procederam às inscrições assumindo o compromisso e a responsabilidade de participar dentro de dias e horários específicos (renegociados e flexibilizados sempre que necessário para atender as pessoas). Vale ressaltar que as ações de treinamento traduzem conceitos do próprio negócio como Sell in (o que se “vende”, as ofertas, a maneira de despertar o interesse nos participantes) e o Sell out (como foi a entrega, resultados e pós-vendas). Antes de cada ação, era necessário realizar um Prework, considerado como o Sell in (objetivando a conexão com o tema abordado antes mesmo dos encontros via web).

A introdução ao tema foi essencial para despertar o interesse e garantir a participação dentro do ambiente de capacitação. Ao iniciar as atividades, invariavelmente foram revisitadas as descrições dos valores disponíveis na Intranet da empresa, ampliando as reflexões, atualizando e/ou modificando os pensamentos. O Prework foi resgatado para assegurar que o primeiro princípio universal da mediação intencional                                      (intencionalidade e reciprocidade) fosse praticado.

Na sequência, os conteúdos formais eram apresentados e as correlações com o que havia sido refletido a todo tempo permeava as intervenções, assegurando o cumprimento do segundo princípio universal da mediação intencional, que é o significado (o quanto importa para o participante, para sua vida dentro e fora do ambiente de trabalho, revisitar esse conteúdo). As ações buscavam a diversão e a utilização precisa de metáforas, para ampliar os percentuais de retenção do conhecimento.

Por fim, os Sell outs cumpriram com o terceiro princípio universal da mediação intencional, que é a transcendência (a capacidade do participante deslocar o conhecimento refletido para ações do cotidiano). Foi quando a Heutagogia ganhou importância, apenas a partir da tensão positiva que deve existir entre a disposição para aprender e modificar o comportamento. A partir daí, o adulto se transforma.

A PLATAFORMA DE OFERTAS

Maior plataforma de ofertas locais do Brasil, o Peixe Ubano tem mais de 30 milhões de usuários cadastrados e milhares de ofertas de gastronomia, entretenimento, estética, turismo e produtos em geral. O Peixe Urbano foi a primeira empresa latino-americana a ser eleita a “Melhor Startup Internacional do Ano” pelo Crunchies Awards, principal premiação dos Estados Unidos para startups da área de Internet e tecnologia. Em novembro de 2017, o fundo de investimento latino-americano Mountain Nazca, responsável pela operação do Groupon América Latina, adquiriu as operações da empresa e realizou a fusão com a Groupon Brasil.

A empresa utiliza tecnologia de geolocalização, além de filtros por interesse e ferramentas de personalização, navegação e busca. Hoje, 90% das ofertas de restaurantes de toda plataforma Peixe Urbano já estão no formato “use agora”, o que significa que o usuário pode escolher, comprar e usar o cupom na mesma hora, sem precisar agendar ou mostrar a versão impressa – tudo pode ser feito pelo celular com apenas alguns toques.

O Peixe Urbano foi fundado no início de 2010, na Zona Sul do Rio de Janeiro (RJ), por três amigos empreendedores, e foi a primeira empresa a introduzir o conceito de “compras coletivas” na América Latina, revolucionando o comércio eletrônico para serviços locais e dando início ao boom de startups na região. Gradualmente evoluiu seu modelo de negócios, eliminando exigências como o número mínimo de compradores para ativar uma oferta e passando a ter milhares de ofertas no ar simultaneamente e por períodos prolongados. Deixou então de ser uma empresa de compras coletivas para se tornar a maior plataforma de ofertas locais do Brasil.

Em fevereiro de 2017, a sede foi transferida para Florianópolis (SC). Hoje a empresa possui mais quatro escritórios: a antiga sede no Rio de Janeiro, São Paulo (SP), Itajubá (MG) e Montevidéu, no Uruguai. Cada unidade é chamada de “Aquário”, e foi pensada para criar um ambiente informal que estimule a criatividade e o trabalho colaborativo.