Uma parceria entre a Via Varejo e a Cooper Viva Bem, cooperativa de catadores de São Paulo, resultou na comercialização de mais de 20 mil toneladas de material reciclável ao longo de quase três anos e gerou renda para mais de 40 famílias. O programa, batizado de Reviva, foi idealizado e implantado pelo grupo varejista para reciclagem, apoio à logística reversa e destinação ambientalmente adequada dos resíduos sólidos gerados na operação paulista das redes Casas Bahia e Pontofrio.

VIA VAREJO

A Central de Triagem de Resíduos Sólidos (CTRS) da Via Varejo, no Centro de Distribuição (CD) de Jundiaí (SP) – o maior da América Latina – passou a ser gerido pela Cooper Viva Bem. Quase todas as unidades (centros de distribuição, escritórios e lojas) do grupo varejista no estado de São Paulo enviam material reciclável à Central. A cooperativa realiza todo o processo até a venda: a separação por tipos (papel, papelão, plásticos, etc.) e a prensa do material. Além de reduzir os impactos ambientais nas operações da Via Varejo, o Reviva contribui para a geração de renda e a promoção do conhecimento em reciclagem das cooperativas. Hoje, são cerca de 45 catadores incluídos e capacitados com sucesso na Logística Reversa, preparados para lidar com um cenário corporativo mais complexo e tecnológico.

O INÍCIO

Até meados de 2014, a coleta seletiva e a logística reversa administradas pela Via Varejo recuperaram mais de 70 mil toneladas de resíduos por meio do programa Amigos do Planeta, que tinha sua operação focada na coleta seletiva de materiais recicláveis no Centro de Distribuição. Mas havia muito espaço para evolução no âmbito da sustentabilidade, quando se considera o que pode ser coberto pelo alcance da Via Varejo.

A partir da vigência da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em agosto de 2014, a empresa entendeu ser necessário não apenas fornecer viabilidade técnica para a coleta e reciclagem do resíduo gerado, mas também tornar a iniciativa ambiental, social e financeiramente sustentável em escala nacional. Para tanto, foi concebido o projeto Reviva.

Além de criar uma forma de tornar a operação da Via Varejo mais sustentável e em conformidade com a lei, o Reviva tem também como proposta consolidar um modelo de negócios que gera receita em uma cultura inclusiva e de compartilhamento de ganhos e riscos entre empresas e organizações de catadores; um modelo que contribui para o fortalecimento das cooperativas de catadores, uma das premissas estabelecidas pela PNRS e acordos setoriais subsequentes à lei.

Com apoio técnico da Giral Desenvolvimento de Projetos, empresa de consultoria especializada no relacionamento entre o mundo corporativo e comunidades, a gerência de sustentabilidade da Via Varejo desenvolveu, por meio do Reviva, uma estratégia que não apenas atendesse os requisitos legais da destinação adequada dos resíduos pós-consumo gerados e coletados pela empresa, mas que o fizesse por meio da adoção de um modelo financeiramente inteligente, possibilitando sua expansão sustentada para todas as lojas e centros de distribuição do grupo varejista no país.

A OPÇÃO POR COOPERATIVA DE CATADORES

Os esforços para a realização das atividades de separação e venda dos resíduos se afastavam da vocação econômica da Via Varejo. A pouca expertise na área e a pressão dos custos com administração e manutenção da CRTS levaram à busca de uma solução fora da empresa.

Após intensa pesquisa e análise de variados cenários socioeconômicos, a Giral chegou a duas propostas de modelo para a gestão da CTRS que contemplavam integralmente as demandas apresentadas pela Via Varejo ao Reviva. Uma delas era a terceirização da operação da central de triagem para uma empresa privada, especializada em gestão e gerenciamento de resíduos sólidos.

Nesse modelo, a baixa complexidade em termos contratuais e a comprovada experiência de empresas estabelecidas no mercado há vários anos eram os principais aspectos positivos, mas o alto investimento necessário e o baixo impacto social tornavam a sua adoção pouco atraente. Ainda de acordo com a avaliação de cenários e diante das desvantagens do modelo de terceirização da gestão da CTRS, a parceria com uma cooperativa de catadores, embora desafiadora, abria a possibilidade de impactar socialmente a vida de dezenas de catadores e suas famílias, reduzir custos em até 44% e cobrir os investimentos realizados por meio de um acordo de reembolso da infraestrutura já instalada para triagem, tudo em consonância com as diretrizes e incentivos previstos na PNRS.

As simulações apresentadas pela Giral indicavam que as cooperativas de catadores de materiais recicláveis tinham mais know-how e melhores resultados que as demais alternativas, além de maior impacto social na divisão dos frutos do trabalho, na organização dos processos produtivos dos materiais recicláveis em diferentes cadeias e na profissionalização e atuação dos catadores. Sob o sistema de cooperativa de catadores, há uma horizontalização da dinâmica de trabalho e da tomada de decisões com a criação de unidades produtivas, onde são compreendidas as atividades de coleta, triagem, criação de estoque e venda.

A ESCOLHA DA COOPER VIVA BEM

A partir de um banco de dados nacional de cooperativas criado pela Giral, foram mapeadas cinco cooperativas, em um raio de 100 quilômetros do CD Jundiaí. Analistas aplicaram ferramentas de diagnóstico desenvolvidas para avaliar as cooperativas em cinco dimensões de sua atuação: requisitos legais, processos, infraestrutura, resultados, responsabilidade social e gestão e liderança.

Ao todo, foram avaliados mais de 220 requisitos, abrangendo desde segurança individual dos catadores e o cumprimento das leis trabalhistas pelas cooperativas até capacidade de triagem, visão estratégica e receitas obtidas pela venda de materiais recicláveis. Antes de firmar uma parceria, era necessário garantir que a cooperativa estava plenamente regularizada e teria capacidade para lidar com o volume de resíduos obtidos pelo Reviva, cerca de 700 toneladas por mês.

Os critérios adotados geraram pontuações que reduziram a concorrência entre duas finalistas para as quais o escopo do Reviva foi explicado após a assinatura de cláusulas de confidencialidade. Até esse estágio, as cooperativas não haviam sido informadas de que o projeto tinha o propósito de criar uma parceria com a Via Varejo.

De modo similar a uma licitação, as lideranças das cooperativas foram convidadas a visitar a CTRS e enviar contrapropostas para a análise da Via Varejo e dos consultores da Giral. A Cooperativa Cooper Viva Bem, atuante há 7 anos na coleta seletiva dos bairros paulistanos de Pinheiros e Lapa e, na época, com  80 cooperados, foi a escolhida.

A gestão eficiente e a busca consciente por resultados da Cooperativa Cooper Viva Bem foram fundamentais para o começo da empreitada. Comercializando cerca de 192 toneladas de recicláveis por mês, 36% menos em comparação com a segunda finalista, a Viva Bem conseguia um retorno financeiro em média 10% maior no valor por tonelada, garantindo que a renda média dos seus cooperados não tivessem flutuações. Trabalhar fortemente por melhores compradores de materiais e por parcerias não influencia apenas em ganhos, cada vez maiores, mas também garante a baixa rotatividade entre os cooperados, algo essencial para o equilíbrio do Reviva.

RESULTADOS

Em quase três anos de operação sob a gestão da Cooper Viva Bem, cerca de 20 mil toneladas de materiais reciclados foram triados na CTRS de Jundiaí, gerando uma receita aproximada de R$ 4 milhões até dezembro de 2017. O modelo de recuperação de resíduos com inclusão dos catadores do Reviva alcançou metas e tem se mostrado financeiramente sustentável no longo prazo, o que é essencial para a empresa expandir o programa para todo o Brasil.

Em parte, o sucesso pode ser explicado pela ampla experiência da cooperativa Cooper Viva Bem no mercado de reciclagem. Evidência nesse sentido é o aumento dos preços de venda por quilo de resíduos obtidos pela cooperativa em comparação com os da Via Varejo antes de sua entrada no Reviva.

Um dos desafios do Reviva para chegar a um formato economicamente saudável com a inclusão dos catadores era cobrir as despesas da Via Varejo com a manutenção no galpão, manutenção e depreciação de equipamentos, energia elétrica, segurança patrimonial e outros custos. A partir de uma estimativa da quantidade anual de resíduos da Via Varejo no Centro de Distribuição de Jundiaí e projeções do mercado de reciclagem, chegou-se a um valor fixo de 20% do faturamento mensal da Cooper Viva Bem na operação da CTRS, já sublocada à cooperativa, a serem reembolsados para a empresa.

Os 80% restantes são destinados para as coberturas das despesas operacionais e para distribuição de ganhos mensais de cerca de R$ 2 mil entre os cooperados, além do recolhimento de INSS, décimo-terceiro salário e férias. Esse valor é quase 4,5 vezes maior que o ganho médio dos catadores no Brasil e 71% maior que os rendimentos dos colaboradores contratados da Via Varejo, de acordo com pesquisa da Giral.

A INDÚSTRIA DA RECICLAGEM

Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a indústria de reciclagem movimenta anualmente US$ 200 bilhões e possui em torno de 1,6 milhão de pessoas nas suas atividades. No entanto, quando se contabiliza o papel dos catadores que trabalham na informalidade, o número pode chegar a 20 milhões de pessoas envolvidas nas diversas etapas de gestão dos resíduos sólidos em todo o mundo. Apenas na América Latina, são 4 milhões de trabalhadores que dependem dos resíduos recicláveis para garantir sua subsistência aponta a ONU-Habitat.

A reciclagem tem o potencial para gerar dez vezes mais postos de trabalho, se comparada com outras formas de destinação dos resíduos – caso dos aterros sanitários e da incineração –, e reduzir em até cinco vezes as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) gerados nesses processos.

Uma interessante estimativa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta que o Brasil tem mais de 400 mil catadores, uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 2002 no país. Eles são responsáveis por 76% da coleta e triagem dos 10,5 milhões de toneladas de resíduos destinados para a reciclagem todos os anos pela indústria, comércio, municípios e consumidores, conforme dados do Compromisso Empresarial pela Reciclagem (Cempre).

Ainda de acordo com os autores do estudo do órgão governamental de pesquisa, a reciclagem, que hoje movimenta pouco mais de meio bilhão de reais no país, poderia gerar até R$ 10 bilhões em receitas, se feita corretamente a formalização dos catadores e cumpridas as políticas governamentais de apoio à atividade. Hoje, apenas 10% dos catadores estão organizados em cooperativas e associações, um número que poderia aumentar para atender uma dupla demanda: dar destinação ambientalmente adequada aos resíduos e cumprir com as obrigações impostas pela Lei 12.305/10, que intituiu a PNRS.

Um dos exemplos de como é possível fazer da expertise dos catadores uma oportunidade está no estudo que acompanha a proposta para a Coalizão Embalagens, um acordo setorial firmado em 2015 entre o Ministério do Meio Ambiente, o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e 21 entidades do setor empresarial, entre produtores, importadores, consumidores e comerciantes. Segundo ele, o direcionamento de investimentos empresariais deve resultar na absorção de mais 14,7 mil catadores em atividade nas cooperativas que receberão apoio empresarial até o começo da próxima década. Com o consequente aumento da produtividade e da renda, inclusive como resultado da venda direta dos materiais para os recicladores, é previsto um crescimento de ganhos entre 40% e 135% nas receitas das cooperativas.

Dado esse potencial e participação significativa na triagem e destinação adequada dos resíduos sólidos, além de sua experiência no mercado de reciclagem, a inclusão dos catadores e das cooperativas nos processos de logística reversa das empresas é contemplada também no marco regulatório da PNRS. Assim, não é pouco dizer que a lei cria mais do que uma premissa para a inclusão: ela abre uma oportunidade para que grupos privados diversos da economia se beneficiem de um know-how adquirido com anos de prática em um serviço ambiental essencial e profissionalizem suas cadeias de valor nesse sentido.

LIÇÃO PARA O FUTURO

O Reviva oferece lições para outros agentes do mercado no contexto da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS): como planejar, avaliar, capacitar, ouvir e, principalmente, manter a equanimidade e a sinergia entre as partes envolvidas.

O modelo inédito de aliança entre uma grande empresa e uma cooperativa de reciclagem representa a promoção e a disseminação do respeito aos direitos humanos, da inclusão social e da redução dos impactos ambientais.

A meta em longo prazo da Via Varejo é que um dia o programa opere em escala nacional, sempre em parceria com cooperativas, e realize a destinação correta de todos os materiais recicláveis enviados pelas lojas Casas Bahia e Pontofrio, prédios administrativos e centros de distribuição do grupo.

A VAREJISTA

A Via Varejo, que pertence ao GPA, é responsável pela administração das lojas físicas e do e-commerce das marcas Casas Bahia e Pontofrio, além dos sites do Extra e Barateiro. A empresa, que tem sede administrativa no município de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo (SP), posiciona-se como uma das maiores varejistas de eletroeletrônicos do mundo e conta com cerca de 50 mil colaboradores em todo o país.

Fundada em 2010 como Globex Utilidades S/A e oficializada com a razão social de Via Varejo S.A. em 2012, a empresa está presente em mais de 400 municípios brasileiros, 20 estados e no Distrito Federal, com cerca de 1 mil lojas físicas.

Para dar suporte à demanda cada vez maior de lojas e clientes, a empresa mantém uma rede inteligente de logística, com 26 Centros de Distribuição e Entrepostos localizados em regiões estratégicas do país, com área de armazenagem superior a 10 milhões de m³. Toda essa infraestrutura suporta uma média mensal de 1 milhão de entregas, realizadas por uma frota superior a 3 mil equipamentos, entre próprios e terceirizados.

Em 2017, a receita líquida da Via Varejo alcançou a marca de R$ 25,6 bilhões, além de lucro líquido de R$ 195 milhões no mesmo período. A companhia possui capital aberto na BM&FBovespa desde 2013.