Instituto de métricas agropecuárias paranaense pretendia inicialmente digitalizar a caderneta de anotações de campo utilizadas nas fazendas de gado de corte, mas conseguiu uma ferramenta que facilita a comunicação dentro da fazenda, aproxima mais o produtor de seu negócio e ajuda na tomada de decisões mais assertivas.


Por Gisele Ribeiro

Até alguns anos atrás, o uso de tecnologia no campo geralmente era direcionado à captação de dados para realizar análises e relatórios que direcionavam decisões estratégicas de produção. Hoje, recursos como GPS, Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial, Big Data, drones e computação em nuvem fazem parte do dia a dia dos produtores e são usados para monitorar os rebanhos e as plantações, controlar as despesas da fazenda e o aproveitamento de mão de obra e até criar uma rede integrada e em tempo real com colaboradores, outros produtores, fornecedores e corpo técnico, como zootecnistas, agrônomos, veterinários e nutricionistas. O objetivo, como em todo negócio, é tornar a propriedade mais eficiente, produtiva e lucrativa.

Os avanços tecnológicos do campo deram ao Brasil papel de destaque entre os exportadores de produtos agropecuários. A pecuária, que contempla a criação de bovinos, ovinos, caprinos e aves, e as atividades envolvidas no setor têm forte representatividade nas exportações e impactam diretamente no saldo da balança comercial. O Valor Bruto da Produção (VBP) chegou a R$ 564,32 bilhões na safra 2019, segundo os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, com 213,5 de cabeças (Getty Images)

Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, com 213,5 de cabeças (Getty Images)

Com cerca de 213,5 milhões de animais, o país tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, de acordo com dados de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É mais gado do que gente, já que a população estimada do Brasil é de 201,1 milhões de pessoas. Parte desse rebanho – cerca de 5,5 milhões de cabeças de boi – é criada em sistema de confinamento, em que o produtor investe para engordar o gado com ração para acelerar o processo de abate com o intuito de aproveitar os preços recordes oferecidos pelos frigoríficos. No modelo tradicional, de boi no pasto, o animal pode levar mais de um ano até estar ponto para o abate. No confinado, são apenas alguns meses.

Para os pecuaristas, o apoio da tecnologia durante todo o processo de engorda do boi para corte é essencial. Uma gestão apoiada em dados torna a propriedade mais competitiva, aumentando a produtividade e reduzindo custos. Uma das peças-chave desse processo é a figura que monitora o rebanho. Nas grandes propriedades, onde o uso da tecnologia de ponta já é aplicado, esse papel pode ser feito por drones, por coleiras com GPS, por chip de Internet das Coisas e sensores colocados em pontos estratégicos da fazenda. Nas pequenas e médias propriedades, porém, essa figura ainda é um funcionário, responsável por mudar o gado de lugar, colocar o sal no cocho, recolher o gado, verificar que bezerros estão prontos para o desmame, se a ração foi dada, se o boi comeu etc.

A maioria das decisões do produtor rural é tomada com base nessas anotações. Nas grandes propriedades, elas saem do sistema de monitoramento direto para o sistema de gestão, possibilitando o acompanhamento dos indicadores em tempo real. Mas nas pequenas e médias, o funcionário anota os dados em uma caderneta de papel e, no final do dia, entrega as páginas para o gestor, que joga as informações anotadas no sistema de gestão para consolidação. São dados como nascimento e morte do animal, mudança de pastagem, movimento do gado e quantidade de ração, entre outros.

DESAFIO E SOLUÇÃO

Pensando em tornar essa tarefa mais rápida e confiável, reduzindo o tempo entre a coleta da informação e sua entrada no sistema, e em aproximar o proprietário da atividade, o Instituto de Métricas Agropecuárias Inttegra, de Maringá (PR), decidiu desenvolver um aplicativo que substituísse a caderneta de anotações por um aplicativo para smartphone.

Smartphone substitui a caderneta de anotações de campo (Getty Images)

Smartphone substitui a caderneta de anotações de campo (Getty Images)

A empresa, que desenvolve e implanta softwares funcionais e inteligentes e rotinas gerencias em propriedades rurais voltadas, principalmente, à pecuária de corte e faz análise de dados para entregar a seus clientes informações valiosas para a melhor tomada de decisão, buscou soluções no mercado. Após algumas tentativas frustradas, chegou até a Bitzen, startup local focada no desenvolvimento de soluções para o agronegócio, que havia desenvolvido um bem-sucedido aplicativo para o mercado de commodities agrícolas.

Inicialmente, a startup iria adicionar a funcionalidade da caderneta eletrônica ao aplicativo Inttegra, já em uso pela empresa, mas, depois de uma primeira rodada de reuniões para definir o escopo de projeto, chegou-se à conclusão de que seria melhor começar o desenvolvimento do zero para ter recursos que pudessem ser adicionados ao longo do tempo. Pelo escopo definido, o aplicativo deveria, entre outros recursos:

  1. Ser fácil de usar, com interação intuitiva e semelhante à de redes sociais como Instagram e Facebook, uma vez que os peões de campo têm baixa escolaridade – a maioria até o terceiro ano do ensino fundamental I – mas estão familiarizados com o uso de smartphones e a estrutura das redes sociais;
  2. Permitir o input de dados em campos predefinidos, de modo a obter respostas padronizadas, corretas, assertivas e legíveis;
  3. Permitir o input de dados on-line e off-line, já que algumas áreas das propriedades, dependendo da localização, são regiões de sombra, não têm sinal de celular ou têm restrição de conexão com a internet;
  4. Fazer a sincronia automática dos dados lançados no aplicativo em campo com o sistema de gestão da propriedade quando houvesse sinal de internet disponível, sem que fosse necessária qualquer interação do usuário para isso;
  5. Enviar os dados lançados para uma área de moderação, para que o controlador/auditor validasse no mesmo dia da coleta as informações antes de consolidá-las no sistema. Pelo método tradicional, de caderneta de papel, a consolidação das informações no sistema poderia levar até uma semana, já que o peão tirava as folhas da caderneta e as deixava com o controlador, que fazia o input no sistema uma vez por semana ou, às vezes, até uma vez por mês;
  6. Gerenciar tarefas, resolvendo um problema de comunicação entre o proprietário rural e a propriedade e da informalidade da delegação de tarefas comum nas fazendas. O peão deveria poder indicar no aplicativo, por texto ou foto, o problema, marcando o responsável pela solução e possibilitando ao produtor acompanhar se o trabalho foi realizado, quando e em quanto tempo, priorizando uma ou outra tarefa; e
  7. Permitir a postagem de acontecimentos e tarefas em um feed de notícias da propriedade, para que o pecuarista pudesse acompanhar remotamente o que acontece na fazenda e comentar e curtir informações e fotos ou tomar algum tipo de decisão mais rapidamente. Segundo Miguel Mendes, diretor comercial da Bitzen isso facilitaria a comunicação entre todos os membros da fazenda;
  8. Ser bilíngue, português e espanhol, para atender tanto os usuários do Brasil quanto os do Paraguai e da Bolívia, onde a Inttegra atua.

O PROJETO

O projeto começou a ser desenhado há cerca de um ano e foi dividido em três fases.  Na fase 1, o aplicativo deveria apresentar a funcionalidade de caderneta eletrônica e compartilhamento de informações e imagens. Na fase 2, seria acrescentada a ferramenta de gestão de tarefas, e na 3, a ferramenta de comunidade. Por suas características de redes sociais, o aplicativo Inttegra foi carinhosamente apelidado de “faceboi”.

A fase 1 levou cerca de 10 meses, de junho de 2019 a março deste ano, quando foi lançada a primeira versão do aplicativo, e envolveu, segundo Antonio Charker Neto, coordenador da Inttegra, cerca de 80 pessoas. Primeiro, um analista da Inttegra se reuniu com a equipe técnica de campo da empresa (zootecnistas, veterinários, e agrônomos do Brasil, do Paraguai e da Bolívia) para levantar as necessidades e os resultados esperados com o aplicativo: Que informações do plantel, da propriedade, de gestão deveriam ser coletados? Que tarefas são comuns durante todo o processo produtivos? Que protocolos precisariam ser estabelecidos? De que forma as informações seriam tratadas? Como elas poderiam ser utilizadas? Qual a melhor maneira de utilizar as informações para melhorar a gestão da fazenda e o manejo do rebanho? Como essas informações deveriam ser apresentadas para seus diversos públicos-alvo e usuários? Essas e outras questões foram levantadas, respondidas pela e colocadas em um documento entregue para a Bitzen.

A startup alocou quatro pessoas (dois programadores, um analista de projetos e um analista de cliente) para definir o escopo e tocar o projeto. A partir do escopo ajustado, a Bitzen começou o desenvolvimento estabelecendo entregas semanais até chegar ao MVP (Minimum Viable Product), uma versão que não tinha todas as funcionalidades pretendidas, mas já dava a ideia de como seria a navegação do aplicativo e o que ele traria. O pessoal da Inttegra testou a versão, propôs ajustes e mudanças até chegar ao que seria a primeira versão funcional.

A partir daí, a Bitzen estabeleceu um cronograma de desenvolvimento que previa entregas semanais, de acordo com as necessidades de cada fase. A primeira etapa foi a do desenvolvimento da coleta dos dados pecuários e o feed de notícias. As funcionalidades foram testadas à exaustão, tanto pela equipe de analistas quanto pela equipe técnica, e ficaram prontas para uso em outubro. Para evitar erros de projeto, as duas equipes faziam acompanhamento diário e encontros semanais. Em março, a primeira versão do aplicativo, com essa funcionalidade entrou nas lojas de apps da Apple (iOS) e do Google (Android).

Ainda em outubro, a equipe começou a criação do MVP da fase dois, acrescentando ao aplicativo os recursos de gestão de tarefas. O método de desenvolvimento foi o mesmo. O MVP passou por testes e correções até ficar pronto no começo de janeiro. Essa versão do aplicativo vai ser lançada na próxima semana. Em um primeiro momento, ela só será usada por dois early adopters, produtores indicados pelos 10 franqueados da Inttegra nos três países onde atua. Esses early adopters farão uma rodada de coleta de dados e gerenciamento de tarefas, e os resultados podem ou não direcionar a melhoria ou a criação de novas funcionalidades. Só depois dessa rodada, a nova versão entra em loja para os usuários.

Após o lançamento da versão dois, a Bitzen começa a trabalhar no MVP e no desenvolvimento da terceira fase, que inclui funcionalidade de criação de comunidades. A programação da Inttegra é lançar a versão final do aplicativo, com todos os recursos já testados, em 1º de julho, quando começa a nova safra. Segundo Neto, a versão integral não será voltada apenas aos pequenos e médios produtores, mas também para os grandes. Ele diz que 95% das grandes propriedades, por mais apurado que seja o uso da tecnologia, não têm números e dados suficientes para fazer uma análise mais aprofundada das informações e fazer uma gestão mais eficiente do negócio a partir disso. O app Inttegra, por seu caráter de rede social, de controlador de tarefas e de coletor de informações de campo de cada cabeça de gado, vai trazer dados de várias fontes e dar ao produtor subsídios reais, e não superficiais, para gerenciar melhor a sua propriedade.

RESULTADOS

A primeira versão do Inttegra foi lançada há pouco mais de um mês, mas já começa a trazer os primeiros resultados para os produtores que já o adotaram como caderneta eletrônica:

  • A sincronia dos dados coletados com o sistema de gestão da propriedade está mais rápida: passou de um mês para até uma semana.
  • Os dados coletados em campo têm melhor qualidade.
  • A análise dos dados coletadas possibilita ao produtor saber exatamente os gargalos de produção (problemas mais comuns, o que está dando certo ou não no manejo, como está a alimentação do rebanho) e, a partir disso, tomar decisões mais assertivas com vistas à melhoria da produtividade.
  • Economia de tempo na tarefa de inserir os dados coletados em campo no sistema. Agora, o controlador/auditor ocupa apenas 1/3 do seu tempo fazendo isso. Nas pequenas propriedades, quem faz isso geralmente é o proprietário, que agora dedica a maior parte do seu tempo a tarefas mais estratégicas para o negócio.
  • O produtor passou a saber o que está acontecendo na fazenda dele de forma mais fácil e organizada.

Agora a Inttegra espera o lançamento da segunda e da terceira fase para apurar novos resultados. Como um próximo passo de desenvolvimento, a Inttegra pretende adotar a Inteligência Artificial para fazer o papel do controlador na análise dos dados anotados em campo pelos peões e que ficam aguardando a liberação para o sistema.

A INTTEGRA

Fundada em 2015, a Inttegra – Instituto de Métricas Agropecuárias – é referência sul-americana em sistemas de controle agropecuário, especialmente na pecuária de corte. Com sede em Maringá, no Paraná, a empresa gerencia mais de 420 fazendas no Brasil, no Paraguai e na Bolívia, totalizando um rebanho – educação, tecnologia e serviços – para municiar os gestores com informações de qualidade, aumentando a capacidade do agropecuarista de gerar resultado através dos números. As informações são coletadas em campo pelo corpo técnico da empresa, que é composto por uma rede de zootecnistas, agrônomos e veterinários licenciados e franqueados.

Para facilitar o dia a dia da gestão nas empresas agropecuárias, a Inttegra presta serviços em assessoria, desenvolve soluções gerenciais – software de controle off-line, plataforma web inteligente de consulta e a análise de informações, dashboards interativos e planilhas eletrônicas – e oferece palestras e treinamentos voltados ao desenvolvimento de gestores e equipes de alta performance.