Há três anos, a Montreal, uma das maiores empresas de tecnologia do país, apostou na criação de uma incubadora de negócios para desenvolver soluções disruptivas dentro do conceito de startups. O objetivo era seguir uma tendência de mercado, e a incubadora acabou gerando uma healthtech e uma logtech com produtos inovadores. A maneira de desenvolver projetos das incubadas provocou uma mudança cultural na empresa.

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Camarão que dorme, a onda leva. O dito popular não poderia ilustrar melhor a necessidade de se colocar em movimento, e é válido, principalmente, no mundo dos negócios, onde uma soneca pode levar à falência ou à perda da competitividade e da liderança de mercado. Yahoo!, Kodak e Blackberry são bons exemplos disso. Apesar de inovadoras em sua época, elas deixaram de investir, justamente, em inovação. E pagaram caro por isso.

Em 2005, o Yahoo! era o maior portal de internet do mundo, oferecendo um misto de serviço de e-mail gratuito, search engine e agregador de notícias. Em meio ao boom da internet, a empresa tinha desenvolvido um algoritmo que conseguia colocar ordem no caos de resultados de busca trazidos por outros sites, como o Altavista, tornando muito mais fácil encontrar informações na Web. O Yahoo! chegou a valer US$ 125 bilhões, achou que estava seguro e não precisava mais investir em inovação e perdeu a chance de adquirir a então startup Google por US$ 1 milhão. Em 2015, a empresa foi vendida por US$ 4,8 bilhões para a Verizon, enquanto o Google se tornou a empresa mais valiosa do mundo.

Outro exemplo é a Kodak. A multinacional americana liderou o mercado de equipamentos fotográficos profissionais e amadores durante a maior parte do século 20 e inventou a câmera digital, produto que deixou de lado ao acreditar que o filme fotográfico ainda teria vida longa. Acabou sendo derrotada justamente pela tecnologia que criou, a fotografia digital. O mesmo
aconteceu com a canadense Blackberry, inventora do smartphone. A empresa foi sinônimo de inovação no ramo de telefonia celular corporativa e governamental e chegou a deter 50% do mercado. Ao ignorar a tendência da tecnologia touch screen (abraçada pela Apple e pela Samsung), e manter seus dispositivos com sistema operacional proprietário, a Blackberry entrou em declínio. Em 2016, passou a fabricação de celulares para terceiros e voltou o foco de seus negócios para o fornecimento de soluções de segurança para o emergente mercado da Internet das Coisas, mas está longe de ser o que era em meados dos anos 2000.

Mas do mesmo jeito que o camarão que dorme, a onda leva, no mundo da tecnologia Seguro morre de velho. Há mais de 30 anos no mercado, a Montreal considera inovação a palavra-chave do seu negócio. Ela investe constantemente em pesquisa e tecnologia e acompanha de perto as tendências de mercado para se manter entre as 15 maiores empresas de tecnologia do Brasil. Sabe que não pode dormir no ponto. Durante uma reunião do conselho para comemorar as três décadas da companhia, o CEO Eduardo Coutinho disse: “Chegamos aos 30 anos, agora temos que fazer a Montreal completar outros 30. Precisamos inovar”.

O DESAFIO

Lançado o desafio, há três anos a empresa decidiu seguir um caminho apontado por um estudo do Gartner Group que
mostrava a incubação de startups como tendência de mercado. O primeiro passo foi criar um departamento com estrutura separada da empresa para encapsular startups que desenvolvessem produtos economicamente viáveis. Essa estrutura contava com uma equipe de três profissionais respondendo diretamente ao CTO e operando de maneira diferente do modelo tradicional de fábrica de software adotado pela Montreal.

No modelo tradicional, uma solução é criada a partir de um escopo pré-definido, que não sofre mudanças ao longo do desenvolvimento. Possíveis erros só são encontrados e corrigidos após a implementação total. A equipe do novo departamento adotou a metodologia Ágil, usada pelas startups, que divide um projeto em vários miniprojetos para ganhar agilidade e minimizar os riscos no desenvolvimento de um software em curtos períodos de tempo (iterações). Cada um desses miniprojetos passa pelas fases de planejamento, análise de requisitos, elaboração do projeto, codificação, teste e documentação e pode ser implantado sem riscos ao fim de cada iteração, quando a equipe responsável reavalia as prioridades do projeto para iniciar o
desenvolvimento de novas funcionalidades.

O primeiro desafio da equipe foi  pensar em produtos atrativos para o mercado, em áreas com tendência de crescimento, que fossem disruptivos e pudessem ter um MVP (mínimo produto viável) para entrar em teste no mercado, criando, dessa forma, demanda para a novidade. Das várias reuniões de brainstorming da equipe, surgiram dois projetos: um sistema de telemedicina e um dispenser para pets. O segundo projeto logo foi abandonado, por ser um produto voltado para um mercado totalmente descolado do core business da empresa.

O sistema de telemedicina, no entanto, se mostrou promissor. Batizado de mCare, o produto monitoraria em tempo real os principais parâmetros vitais de um paciente ou idoso, identificando possíveis alterações e enviando alertas imediatos para médicos, cuidadores e/ou familiares, de modo a permitir correções na dosagem de medicamentos e atendimentos emergenciais.

Dispositivos vestíveis de monitoramento clínico com dados enviados via Bluetooth para aplicativo da mCare

HEALTHTECH

Para viabilizar o sistema, a equipe se debruçou sobre produtos similares no mercado e em estudos na área de telemedicina, de modo a identificar as falhas, os acertos e as melhorias possíveis que pudessem levar à criação de um produto diferenciado. Feito o levantamento, o grupo definiu as características do mCare: comunicação imediata por vários meios (e-mail, SMS, voz), tecnologias de coleta de dados (câmeras, sensores inteligentes e IoT, dispositivos vestíveis), tecnologias de interpretação de dados (Big Data, Manutenção Preditiva, Business Inteligence), tecnologias de transmissão de dados (bluetooth, Wi-Fi, dados móveis) e interfaces para acesso aos dados (aplicações para dispositivos móveis, site).

O próximo passo foi buscar parcerias com outras empresas que ajudassem a tornar o produto viável e criar a healthtech mCare para desenvolver aplicativos que permitiriam a interação do usuário com o sistema. O resultado foi um produto que possibilita a transmissão em tempo real de indicadores clínicos, como temperatura, pressão arterial, oxigenação e taxa de glicose, para o médico, o hospital, o plano de saúde ou os responsáveis pelo paciente.

Telas do aplicativo para usuário da mCare

Os dados são coletados por meio de um dispositivo vestível (termômetro, aparelho de pressão, oxímetro, glicosímetro e balança) e enviados por Bluetooth a um smartphone,tablet ou computador. Inseridas no sistema, as informações são compartilhadas imediatamente com o médico, que pode orientar o paciente ou seu acompanhante sobre o procedimento a ser adotado em caso de oscilações atípicas. O histórico de dados fica armazenado na nuvem, em um ambiente desenvolvido pela Montreal.

LOGTECH

O sucesso do mCare levou a equipe a desenvolver o Drone Solutions, um sistema de inventário, monitoramento e auditoria de grandes galpões, que dá 100% de acurácia no controle de estoque. A solução usa drones para filmar e fotografar as mercadorias armazenadas, dispensando o manuseio manual dos pallets armazenados nas posições mais altas, reduzindo custos e riscos operacionais e economizando o tempo de movimentação da carga com empilhadeiras. O objetivo do produto é encurtar o tempo de inventário e reduzir potenciais problemas de expedição. O MVP bem-sucedido acabou levando à criação de uma LogTech, a Montreal Drone Solutions, a segunda encubada pela equipe de inovação da empresa.

Drone fotografa estoque nos galpões e envia para aplicativo em dispositivo de controle, como tablet ou celular

Três anos depois de iniciar o projeto de incubação de startups, a equipe cresceu. Agora, são cinco profissionais – um head, um gerente de relações estratégicas, um UX (user experience) e dois engenheiros de software mobile – pensando produtos estratégicos que podem se transformar em novas startups. Para o gerente de inovações da Montreal, Adriano Carpinetti, responsável pelos projetos da mCare e da Drone Solutions, o desenvolvimento de produtos no modelo de startup estabeleceu
uma nova cultura dentro da Montreal. A empresa, que sempre desenvolveu e integrou soluções no sistema de fábrica de software, viu que é possível adequar muitos dos conceitos de startups à realidade da empresa, como a forma de trabalho em
squads, com equipes multidisciplinares e metodologia ágil, sem comprometer a qualidade do produto final.

Também passou a atuar proativamente. Em vez de focar apenas em projetos por edital, atendendo à demanda de clientes
de forma reativa, começou a desenvolver produtos inovadores para criar uma demanda futura de mercado, aumentando a longevidade da empresa.

A MONTREAL

Com mais de 30 anos no mercado, a Montreal é uma das principais empresas de desenvolvimento e integração de
soluções de TI do país. Desde 1998, implementa soluções biométricas. Hoje, detém cadastro com 25 milhões de registros biométricos, um dos maiores da América Latina.

Entre suas linhas de negócio, oferece aplicações nos segmentos de Fábrica de Software nos modelos CMMI – Systems Engineering Institute Methodology nível 5 e MPS-BR nível C –, e soluções para Business Process Outsourcing (BPO), crédito imobiliário (gestão de carteiras), data center (hospedagem física e na nuvem), gestão de informação, gestão de processos, outsourcing, print center, Robotic Process Automation (RPA), Service Desk/Call Center e Transformação Digital. A empresa
tem 11 unidades e cerca de 5.000 colaboradores.