Por Cintia Salomão

O trecho de 180,4 quilômetros da BR-040, entre a cidade mineira de Juiz de Fora e o Rio de Janeiro, é cercado pela Mata Atlântica e por importantes Unidades de Conservação ambientais ao longo de boa parte de sua extensão. Espécies como a jaguatirica, o gato-mourisco e ouriços se refugiam na região que cerca a rodovia, pela qual trafegavam em média 44 mil veículos por dia no período pré-pandemia.

A via desempenha um papel importante na integração regional e já recebeu investimentos por parte da Concer de R$ 1,5 bilhão desde o início da concessão, o que resultou em melhorias efetivas para os usuários, como a ampliação das pistas da Baixada Fluminense e a duplicação do trecho entre Matias Barbosa e Juiz de Fora para atender ao crescimento da demanda do setor de transportes.

A proximidade das pistas e suas 38 passarelas com a fauna do rico bioma da Mata Atlântica, porém, geram alguns desafios tanto para os motoristas quanto para as espécies que lutam pela sobrevivência.

DESAFIO

A alta ocorrência de atropelamentos de animais silvestres sempre representou um transtorno tanto para os motoristas quanto para a Companhia de Concessão Rodoviária Juiz de Fora-Rio de Janeiro, a Concer, concessionária que administra o trecho desde 1996. A presença de ouriços, primatas, pássaros silvestres, cobras e gambás causava acidentes, danos aos veículos e dezenas de pedidos de ressarcimentos à concessionária por parte dos motoristas prejudicados. O risco é dobrado quando os animais atropelados são de maior porte, como capivaras e onças.

O prejuízo para o bioma da Mata Atlântica também era considerável, pois várias das espécies atropeladas estão em risco de extinção, como o lobo-guará, a onça-parda e a jaguatirica. Entre os animais atingidos com mais frequência estão o gambá, o ouriço, o pássaro anu e a cobra cascavel.

SOLUÇÃO

Em 2006, para mitigar o impacto ao meio ambiente e reduzir os transtornos gerados tanto para os usuários quanto para as operações na rodovia, a Concer implantou o programa Caminhos da Fauna, coordenado por biólogos.

As estratégias usadas incluíram o monitoramento por câmeras, a formação de um amplo banco de dados com informações precisas sobre os locais mais críticos e um trabalho de resgate das espécies. A equipe composta por biólogo e assistente de campo percorre, diariamente, a área de concessão da Concer.

– Em primeiro lugar, a equipe realiza um monitoramento dos pontos onde ocorria um maior número de atropelamentos. Os profissionais também monitoram as espécies atropeladas, coletando informações, como o local onde a carcaça foi encontrada. Fotos são tiradas com marcação do GPS – relata à Case a coordenadora de meio ambiente da Concer, a bióloga Renata Villegas de Castro.

Entre as espécies monitoradas pelo projeto Caminhos da Fauna, há várias ameaçadas de extinção, como a onça-parda, o lobo-guará, a jaguatirica e o gato-mourisco

Esse trabalho minucioso permitiu a formação de um rico banco de dados desde o início do projeto. A partir de então, foram identificados os trechos mais críticos, e os gestores começaram a elaborar as ações mitigadoras mais adequadas.

Uma delas foi a construção de uma passagem subterrânea no KM 816, próximo à última praça de pedágio. No local, ocorriam muitos atropelamentos de carnívoros, como jaguatiricas, lobos-guará e onças-pardas.

– Essas espécies começaram a usar a passagem subterrânea, evitando que cruzem a pista. As câmeras implantadas no local permitem que analisemos se a passagem está realmente funcionando – revela a bióloga da Concer.

Outra estratégia do projeto Caminhos da Fauna foi a introdução das chamadas “cercas de fauna”, que são alambrados colocados em alguns pontos críticos, como nos trechos da Baixada Fluminense, onde há muita ocorrência de capivaras. A estrutura evita que os animais terrestres cruzem a pista. Um dos projetos da Concer é a construção de uma passagem aérea no trecho da Serra, onde morrem muitos animais escaladores, como macacos, ouriços e gambás.

O braço operacional de monitoramento das condições da rodovia da Concer encontra-se bastante envolvido no projeto ambiental e constitui uma força importante que auxilia em diversas etapas. Além do circuito de 100 câmeras espalhadas pela rodovia, diversas Viaturas de Inspeção de Tráfego (VIT) circulam 24 horas ao longo de todo o trecho administrado pela concessionária.

Os ciclos de rondas passam pelo mesmo ponto a cada hora, o que possibilita a constante observação do movimento de animais silvestres ou domésticos. Os mais de 50 inspetores de tráfego devidamente treinados auxiliam na coleta de carcaças e até no salvamento das espécies, acionando a equipe do meio ambiente a qualquer momento.

O Caminhos da Fauna também envolveu um aspecto essencial para o sucesso do projeto: a questão educativa dos motoristas. Placas com orientações foram colocadas em diversos pontos da BR-040 com o objetivo de informar que o referido local representa uma área de passagem de animais silvestres. As sinalizações alertam para a necessidade de reduzir a velocidade evitar atropelamentos de espécies. A Concer ainda promoveu campanhas educativas na rodovia e junto a alunos de escolas para explicar sobre a importância do projeto na preservação das espécies.

A orientação da Concer ao usuário é ligar para o 0800 da concessionária em caso de atropelamento de animais, avisando sobre a localização. A equipe de biólogos se dirige imediatamente para o local para averiguar a situação e fazer o recolhimento.

RESULTADOS

– A Concer recebeu em 2018 o Selo Verde, maior certificação ambiental do país, na categoria Case/Ação Ambiental Responsável após análise do projeto Caminhos da Fauna.

– Houve significativo aumento do nível da segurança dos usuários, com redução de pedidos de ressarcimento por parte dos motoristas. Entre 2018 e 2020, foram registrados apenas 21 pedidos de ressarcimento por atropelamento de animais silvestres, distribuídos da seguinte forma: 8 em 2018, 7 em 2019 e 6 em 2020.

– Os atropelamentos de espécies da fauna foram reduzidos em mais de 65% nos últimos sete anos. Em 2014, foram registrados 2693 atropelamentos de animais no trecho da BR 040 administrado pela Concer. Já em 2020, foram 879 os atropelamentos de espécies da fauna

– Houve melhora da relação da Concer com a opinião pública e melhora da interação com os usuários da rodovia, gerando retorno favorável à imagem da empresa.

– Entre 2018 e 2020, foram registrados apenas 21 pedidos de ressarcimento por atropelamento de animais silvestres, distribuídos da seguinte forma: 8 em 2018, 7 em 2019 e 6 em 2020.

– 468 animais silvestres afugentados da rodovia já foram resgatados pelo projeto.

– 95 animais foram capturados e retirados da rodovia para áreas adjacentes e seguras.

– 135 animais silvestres foram resgatados e encaminhados para atendimento veterinário pela Concer por estarem feridos por atropelamento

– A Concer estabeleceu parceria com as Unidades de Conservação. A concessionária garante a assistência veterinária aos animais resgatados pelas Unidades Rebio Tinguá, APA Petrópolis, Refúgio da Vida Silvestre, Serra da Estrela e Rebio Araras. Somente entre 2019 e 2020 foram encaminhados 44 animais por meio dessa parceria.

– Foram encaminhados 2.272 exemplares de carcaças ao Museu Nacional do Rio de Janeiro para a reposição da coleção perdida no incêndio de 2018 e para fins de pesquisa cientifica, desde 2014.

– 16 pesquisas científicas já foram publicadas em revistas e periódicos de relevância para a comunidade científica, incluindo dissertações de graduação, mestrado e doutorado, por meio dos dados obtidos pelo projeto Caminhos da Fauna.

–  28 placas educativas e sinalizadoras acerca do risco de atropelamento de fauna foram instaladas ao longo do trecho da Concer

– 21 redutores de velocidade foram instalados no trecho, inclusive nos pontos mais críticos de atropelamento.

– 10 pontos com telas/cercas protetoras para fauna foram colocados ao longo da rodovia.
– 1 faunoduto monitorado com câmera trap foi implantado na rodovia.