Sofrendo com as diferenças de tamanho de seus uniformes, a União Brasileira de Escoteiros (UEB) resolveu fazer a padronização da modelagem de todo o vestuário. No processo, acabou descobrindo problemas maiores, como o desperdício de matéria-prima e diferenças no acabamento das peças confeccionadas, que levaram à revisão de todo o seu modelo de negócios. O resultado foi um aumento no faturamento da loja de cerca de 1.500% em quatro anos.

A padronização de peças de vestuário sempre foi um problema no Brasil e no mundo. Um mesmo número e modelo de calça, por exemplo, pode ficar grande ou pequeno no usuário dependendo da confecção, frustrando a expectativa de compra do consumidor. Em 1968, a International Organization for Standardization (ISO), entidade que coordena padronizações, tentou resolver a questão ao determinar que as medidas de roupas fossem proporcionais aos biótipos de cada país. Naquela época, a globalização ainda não estava em curso, e a entidade não previa que peças de diferentes países, como China ou França, fossem ganhar mercados muito além de seus territórios. Só que, como cada país utiliza a sua própria fita métrica, isso se transformou em outro problema.

No Brasil, o número da calça feminina é a metade do comprimento do quadril subtraída de 8. Assim, uma mulher com 96 cm de quadril vestiria tamanho 40. Não é bem assim. Na modelagem chinesa, amplamente utilizada no Brasil, esse 40 só vai caber em alguém que use 34 ou 36, pois a mesma fórmula que vale na China, onde o biótipo é mignon, não vale por aqui, onde o padrão feminino é totalmente diferente. Há, ainda um outro fator a ser considerado. Quando as normas foram criadas pela ISO e cada país chegou à sua fórmula, o mundo era mais magro. Como essas normas não mudaram, as fábricas abandonaram as réguas e aumentaram a modelagem aleatoriamente para acompanhar o aumento de peso, criando uma despadronização generalizada.

Sede da União dos Escoteiros do Brasil, em Curitiba

O problema já foi solucionado nas roupas infantis e masculinas, que seguem no Brasil a padronização baseada na unificação de modelagem. Criada pelo Comitê Brasileiro de Têxteis e do Vestuário, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), essa nova norma permite a identificação do tamanho certo não por número, mas pelas medidas do corpo: colarinho, busto, costas, braços, altura, cintura, quadril e coxas. Isso significa que os tamanhos P, M e G são iguais em qualquer confecção (exceto nas peças importadas, que continuam seguindo os padrões ISO).

As diferenças na modelagem não se limitam às peças do cotidiano. De escolares a corporativos, os uniformes também são vítimas da falta de padronização. É o caso da União dos Escoteiros do Brasil (UEB). A entidade, que representa 104 mil escoteiros em todo o país e vende 4.300 peças de uniformes por mês, vinha sofrendo com as diferenças de tamanhos e de qualidade em todas as peças de seu catálogo e decidiu promover uma correção de modelagem.

REVISÃO DE PROCESSOS

No início de 2015, por indicação da Santista, a UEB procurou a STYL Uniformes para fazer a correção daquilo que acreditava ser seu único problema: o padrão de modelagem. Até aquele momento, a entidade contratava grupos de costureiras, as chamadas facções, que cortavam o tecido e costuravam as peças seguindo, cada um, os seus moldes. Como resultado, as numerações não batiam, nem o corte das peças. No entanto, na primeira reunião com a diretora da empresa, Kamille Cunha, outros problemas foram mapeados: além da falta de padrão na modelagem, havia desperdício de matéria-prima nas facções, falhas no processo de compra de tecidos e aviamentos, perda de matéria-prima no armazenamento e falta de qualidade no acabamento do produto. 

Calças, bermudas, camisas e camisetas fazem parte dos uniformes da UEB

No mês seguinte, a equipe da UEB e Kamille trabalharam no levantamento de todos os problemas relacionados aos uniformes. O objetivo era identificar todas as falhas de processo: desde a compra da matéria-prima até a confecção das peças. Algumas dessas falhas foram pegas pela própria UEB depois das reuniões com a STYL.  Outras foram levantadas ao longo do planejamento e execução do projeto, cuja implantação levou dois anos.

No primeiro ano, a STYL focou na modelagem e no sistema de confecção em si. Com uma fita métrica em mãos, ela comparou as medidas de todas as peças de uniforme e comprovou que cada grupo de costureiras trabalhava com sua própria padronização e graduação. O problema se agravava quando a mesma peça era produzida por mais de uma facção, o que levava a diferenças significativas de tamanho e acabamento. Nesse ponto, foi constatado que a UEB não tinha controle sobre a produção. Quando algum problema no uniforme era encontrado, a UEB não conseguia identificar quem havia produzido a peça, pois elas eram entregues sem identificação da facção.

O próximo passo foi criar uma modelagem padronizada. A STYL comparou as medidas de várias tabelas de medidas para comparar com a base da UEB e desenvolveu um padrão que leva em conta o biótipo de crianças, adolescentes e jovens adultos brasileiros, o público-alvo da UEB. Nessa comparação, outro problema foi encontrado: havia muito desperdício de tecido em função das modelagens diferirem. Quando se chegou ao denominador comum às novas medidas, esse desperdício acabou.

BAIXA PRODUTIVIDADE

Nessa etapa, foi detectado que a produtividade das peças com mais detalhes era baixa. Elas não entravam nem saíam da produção rapidamente. Ficavam paradas para a costura de um bolso, por exemplo, com uso de tecido a mais do que o necessário. Com a nova modelagem, a produção ficou mais eficiente e o desperdício deixou de existir. No entanto, havia a questão da segurança.

A STYL orientou a UEB a produzir seus uniformes em fábricas, em vez de usar as facções. Por dois motivos principais. O primeiro é que geralmente as facções não fazem a compra do tecido e dos aviamentos. O cliente compra o tecido e o envia para as costureiras, que cortam e costuram a peça. Algumas nem mesmo fazem o corte. Se elas erram, cortam uma nova peça sem ter a preocupação com o desperdício. O segundo motivo é que as fábricas ficam responsáveis por todo o processo de confecção, desde a compra de material até a entrega. O cliente só tem que fazer o pedido, pagar e receber o produto acabado. Se a produção erra no corte ou na costura, o custo é da fábrica, e não do cliente. Este ainda tem a garantia de que receberá o produto dentro dos padrões e na data agendada.

Com essa medida, a UEB deixou de se envolver em uma parte do processo que não era de seu entendimento: que é a compra e estocagem do material para a confecção dos uniformes. Como o poder de negociação da UEB com as tecelagens era muito menor do que o das fábricas, a entidade não conseguia negociar preços ou prazos e era obrigada a comprar em grandes quantidades – muito maiores do que a necessária para a produção. Ainda pagava um imposto mais alto do que as fábricas. Para completar, esse material era armazenado na UEB de forma incorreta: de pé, em local úmido e exposto à luz. Mais desperdício, porque o tecido sofria alterações e era perdido.

A UEB concordou em passar a produção para as fábricas e estabelecer parceria com tecelagens, já que além de economizar, deixaria de dispender esforços com questões que não conheciam a fundo. Ao qualificar as fábricas para trabalhar com a UEB, a STYL fez com que elas comprassem todo o estoque de tecidos e aviamentos que até então era enviado para as facções. Com as tecelagens, a preocupação foi buscar parceiros que pudessem garantir a qualidade e uniformidade dos tecidos usados na confecção do vestuário. Três fábricas e uma tecelagem foram qualificas inicialmente.

PARCERIAS ESTRATÉGICAS

Para manter a padronização do acabamento e aumentar a produtividade, ficou definido que cada fábrica seria responsável pela confecção de uma só peça. Assim, quem produzisse camisetas, por exemplo, não confeccionaria bermudas ou calças. O objetivo, além de fortalecer o parceiro, era ter uma produção contínua na fábrica, de modo a facilitar a solução de possíveis problemas e a criar um relacionamento de longo prazo de confiança. Tanto que uma das fábricas comprou máquinas eletrônicas para a aplicação dos bolsos do uniforme cheios de detalhes.

O processo de modelagem previu o recorte eletrônico dos bolsos para evitar desperdício de tecido

Todo esse processo foi feito no primeiro ano. No segundo ano veio a fase dos ajustes. Com a primeira leva de uniformes produzidos pelas fábricas dentro dos novos padrões, constatou-se que elas não conseguiam entregar a produção na velocidade que a UEB pedia. O motivo: elas trabalhavam com prazo de entrega padrão do mercado, de 60 dias. E a UEB necessitava que as entregas fossem semanais ou quinzenais. Durante seis meses, as fábricas foram ajustando seus prazos para se adequar às necessidades da entidade. O problema foi solucionado de vez com aproveitamento do período de produção ocioso das fábricas, em dezembro e janeiro, quando há férias coletivas. Esse período está sendo utilizado para a confecção dos uniformes da UEB, que, em setembro e outubro, envia os pedidos com base no desempenho de vendas do ano anterior. Para completar, um calendário com a programação de pedidos antecipados foi construído para otimizar o estoque de produtos acabados e garantir o atendimento imediato às lojas.

RESULTADOS

Com a definição de uma nova modelagem e a orientação aos fornecedores sobre o corte adequado, houve redução de 30% no tempo de confecção das peças e de 40% no consumo de tecido. Além disso, com a melhor qualidade e modelagem, os custos baixaram e as peças ficaram com bom valor de mercado, levando os escoteiros a renovar seus uniformes com mais frequência. A produção passou a ter um controle de qualidade rígido. Além do crescimento exponencial das vendas, o processo fez com que o índice de satisfação dos usuários saísse dos 65% e ultrapassasse a marca dos 90%. Calças e bermudas, antes com costuras simples, por exemplo, passaram a ter costura dupla, evitando que elas se abrissem no meio de uma atividade.

O reflexo de todas essas mudanças pode ser visto nos resultados da UEB. Em quatro anos, o faturamento anual da loja da entidade saltou de R$ 700 mil para R$ 11 milhões, e a venda de uniformes é responsável por 41% desse valor.

A UEB

A União dos Escoteiros do Brasil, ou apenas Escoteiros do Brasil, foi fundada em 4 de novembro de 1924. É uma sociedade civil de âmbito nacional, de direito privado e sem fins lucrativos, de caráter educacional, cultural, beneficente e filantrópico. Única organização reconhecida e certificada pela Organização Mundial do Movimento Escoteiro a praticar o escotismo no Brasil, ela representa mais de 104 mil integrantes em todo o país. Os 1.480 grupos de escoteiros que ela congrega estão presentes em 671 cidades.